1 de março de 2015

lugar nenhum - aqui, agora.

Rolando o instagram e olhando as imagens que os amigos mandam via whatsapp, para ilustrar, por exemplo, se a festa está animada, fiquei pensando sobre a maneira como estamos fazendo o uso da imagem hoje em dia. Sobra algum espaço para imaginação? O darwinismo deve estar a pleno vapor e as próximas gerações já virão com uma função cerebral capaz processar tantas informações visuais. No presente, alguns artistas já esboçam o futuro e propõem reflexões sobre o uso da imagem.



Courtney

Stacy


Julia


Em 2011, no Festival de Fotografia Paraty em Foco conheci o trabalho da Laís Pontes. Usando recursos de cabelo e maquiagem e muito retoque digital, a fotógrafa nascida em Fortaleza, imaginou diferentes garotas. Ela mesma as encarna e se fotografa. "Comecei a me fotografar porque era mais fácil, já que eu estava disponível pra mim mesma o tempo todo". Laís compõe a imagem e a publica no facebook e aguarda os comentários das pessoas a respeito das meninas. O projeto foi batizado de "Born Nowhere" (nascida em lugar nenhum, numa tradução literal).


Há cinco anos, quando o projeto começou, o instagram estava no começo. Hoje é uma rede social tão poderosa quanto o facebook e também foi incorporado ao projeto. A fotógrafa morava em Nova York e hoje está em Londres. Passou um tempo em Chicago, onde fez mestrado. Laís falou ao Moda pra Ler falou sobre a evolução do projeto.

As meninas
Criei 25 personagens. Gosto muito da Julia porque foi a primeira. Adoro quem ela é. A mais popular é a Courtney, ela é bonita e de bem com a vida. As pessoas gostariam de ser como ela, inclusive eu.

Encarnando as personagensElas surgem inspiradas em diferentes sentimentos: felicidade, raiva, ansiedade, saudade. Algumas representam fantasias sobre a vida alheia. Eu passo algum tempo atuando da maneira que penso que os personagens agiriam: vendo filmes, ouvindo música, indo a lugares que elas iriam e interagindo com pessoas que ela gostaria de ter como amigos. Escolho uma roupa e uma maquiagem baseada nesta personalidade que imaginei. Eu gasto de sete a 10 horas de photoshop para criar a estética de cada uma. Depois, posto no facebook e os usuários comentam as características delas e ajudam a delinear melhor a personalidade de cada uma, desde o nome até características psicológicas e a história de vida de cada uma. A partir dos comentários construo as biografias.

Referências não fotográficas
Atualmente as ideias dos meus trabalhos estão sendo influenciadas por filósofos mais do que por artistas. Marshall McLuhan e Zygmunt Bauman são referências constantes em meus projetos. A escrita dá suporte a estética do trabalho. As vezes a escrita é incorporada à estética, mas na maioria das vezes funciona como reflexões. Também tenho acompanhado e admirado cada vez mais artistas como a Penelope Umbrico, pela temática, o assunto que ela aborda, e a estética do seu trabalho; Sophie Calle pela obsessão por cada projeto; e Eduardo Kac pelo pioneirismo, profissionalismo, respeito aos próprios conceitos.

mundo real x mundo virtual
Como uso fatos da minha vida pessoal e fantasias, as pessoas nunca sabem o que é realidade ou não. As vezes a fantasia vira realidade também. Quando dei os personagens para outros participantes no projeto Born Now Here, a confusão aumentou. Recebi varias mensagens particulares de pessoas confusas pelos comentários no Facebook, Instagram e Tumblr. Um amigo deixou de falar comigo alegando que nunca sabia quem eu era na mídia social, apesar de ser também artista e de ter estudado comigo, então tanto me conhecia como conhecia os meus projetos.

Instagram
Utilizo o Instagram de duas formas. A primeira como ferramenta de criação, como plataforma social no projeto "The Girls on The Instagram", @bornnowhere. E a segunda para divulgar os meus trabalhos @laispontes. Em "As Meninas no Instagram", os personagens estão em todos os locais e suas identidades passam por constantes transformações dialogando com comportamentos da nossa sociedade. As aventuras de cada personagem são documentadas através de fotografias feitas por mim mesma e por outros participantes do projeto. Estas imagens não apenas trazem os personagens para o mundo físico, mas também dão vida às fantasias de quem as fotografa.



Born No where - Born Now Here
Em 2013 criei o Born Now Here (Nascida aqui e agora). Neste projeto em andamento, algumas meninas têm páginas próprias no facebook. Incorporo as atitudes dela no meu cotidiano. Todas as imagens são baseadas nos comentários dos internautas sobre a personalidade delas no facebook.



Stacy tomando cerveja na praia

Isto não é um #selfie
É complicado explicar a minha relação com a timidez e senso de privacidade. Acho que não sou mais tímida quando estou dando palestras ou aulas. É como se incorporasse um personagem quanto estou falando em público. A minha paixão pelo meu trabalho é maior do que a minha timidez, poderia explicar assim. Não gosto de falar da minha vida pessoal, apesar de usá-la constantemente durante o processo criativo. Comecei a me fotografar porque era mais fácil, já que eu estava disponível pra mim mesma o tempo todo. Depois percebi que os meus questionamentos não eram somente meus, então o uso da minha imagem ganhou um novo sentido muito mais abrange e importante para mim.

Figurino e maquiagem
A roupa e a maquiagem ajudam muito na performance. E as perucas eram partes essenciais no momento da criação. Em alguns personagens não as usei e confesso que foi muito mais difícil. Visto minhas roupas e comprei outras. Não consegui usar de novo as peças que faziam parte do meu guarda-roupa e vesti nas personagens. Era como se elas não me pertencessem mais.


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Exercício de escola feito com os trabalhos de Laís.

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