15 de dezembro de 2014

procura-se memória

ilustração do livro "Vestido de Menina"

As Moiras são as fiandeiras do destino.
Elas aparecem repaginadas em Macbeth de Shakespeare e controlam o fio da vida.
Penélope tecia para esperar Ulisses voltar da Odisseia.
As rendeiras teciam para esperar os pescadores voltarem do mar. "Onde tem rede, tem renda", me ensinou a Socorro, rendeira de mão cheia de Parnaíba, litoral do Piauí.
Tecer é o exercício da paciência.

O instituto de pesquisas moda pra ler apurou em suas próprias redes sociais, posts do tipo "Alguém conhece um curso de costura?", fotos de gente com bastidor, agulha e linha na mão, e outras cenas referenciando o "feito à mão" ou o "faça você mesmo" (na versão gourmet é "DIY", abreviação cool de "do it yourself").

zeitgeist da retomada de trabalhos manuais (marcenaria também anda em alta) revela que a vontade coletiva de usar mais do que as digitais para se relacionar com o mundo e com as pessoas e se proteger da avalanche de apps.

Bordado de Cindy Steiler


Fui pela primeira vez ao SP Eco Era, evento organizado pela Chiara Gadaletta, para assistir à  mesa "A Memória das Roupas". Participaram João Braga, professor de História da Moda, Luciana Amarante do brechó ASA (Associação Santo Agostinho), Maira Zimmerman, professora e historiadora de Moda e Franz Ambrosio, dono do brechó Minha Avó Tinha. A própria Chiara mediou.

A conversa começou com as definições do que é "Vintage" e do que é "Retrô". Vintage é a definição para uma peça de roupa antiga que representa o melhor de uma época. Já o retrô é uma peça nova com cara de outra época.

Depois o papo rumou para a necessidade de ter um museu da moda e dificuldade para conservação de têxteis. Franz contou o caso de um vestido do século XIX que aterrissou em seu brechó. Ele tentou doá-lo à várias universidades. Nenhuma aceitou. A alegação foi a falta de condições ideais de temperatura e pressão para conservá-lo. O destino final da peça foi o Museu do Ipiranga. João Braga emendou falando da coleção de vestidos de alta-costura da Eufrasia Teixeira Leite* que estão na Casa da Hera na cidade de Vassouras no Rio de Janeiro. O professor também comentou a respeito das inúmeras tentativas de se montar um museu da moda.Aqui em São Paulo já virou lenda urbana. As boas notícias vem de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro. Em BH foi criado o Centro de Referência da Moda, onde há uma área de museu, "honestíssimo", segundo o historiador, e a colunista Hidelgard Angel está a ponto de montar um museu no Rio (se o futuro museu do Rio for como a expo da Zuzu no Itaú Cultural, vai ser incrível).




Bordados das Artesãs de Passira.
Elas apresentaram coleção no evento.
Fotos @modapraler

A professora Maíra Zimmerman citou o livro "Casaco de Marx" do sociólogo Peter Stalynbrass. O texto norteou seus alunos para um trabalho onde cada um deveria trazer uma peça de roupa com alguma história pessoal. Segundo seu relato a apresentação foi emocionante.

No livro, Stalynbrass revela que as roupas eram itens descritos nos inventários das famílias. Estamos falando de século XVIII e a indústria do prêt-à-porter se consolidou mesmo em meados do século XX (escrevi sobre o livro aqui). Estamos no século XXI e não sabemos de cor o número celular da nossa própria mãe. Além da memória, o celular também anda nos roubando oportunidades de observar, contemplar, conviver com o mundo e com os seres humanos (aproveito o post para manifestar que mensagens escritas e e-mails têm o dom de transformar pessoas de bom coração em seres blasés e prepotentes, como o "Senhor Volante" do Pateta).

A memória afetiva das roupas também é o mote para o documentário "Idades da Moda", dirigo pelo Marcelo Machado e pelo Gilmar Moretti.



Ainda não entrou em circuito comercial, mas anda com exibições pontuais aqui e ali. Nele, pessoas falam sobre suas memórias afetivas relacionadas ao vestuário.  Pais falam sobre as roupas dos filhos e relembram as peças favoritas da infância por meio de fotos. Pessoas sem filhos comentam o próprio estilo e mostram fotos.  Uma das cenas mais bonitas do filme é quando um estudante de moda revela a tatuagem que fez reproduzindo um ponto de bordado da avó costureira.  Um comentário no filme me chamou a atenção: "a gente lembra do momento por causa da foto".

Depois de ver o filme deu um medo. Há alguns anos que não imprimo fotos. A longo prazo, quando o facebook e o instagram acabarem, posso esquecer toda uma fase da minha vida.



Voltando ao museu da moda. Por que ele é importante?

A Moda começou a ser entendida como cultura no país há muito pouco tempo. Lembram do chilique que algumas pessoas tiveram em 2013 com a história da Lei Rouanet? A moda e a culinária são as manifestações culturais mais cotidianas.  Ninguém sai na rua vestido com um livro, um filme ou um quadro, mas roupa sim (fica a sugestão para performances, lembrando sempre que a Lady Gaga já saiu vestida de carne).

A moda está conquistando mais espaço no meio acadêmico. Ainda tem chão pela frente. Fico pensando se o tema também não sofre com machismo vigente na América Latina, afinal é uma área majoritariamente feminina e gay. No meio intelectual o machismo está nas entrelinhas. Mas antes de criar polêmica, a primeira premissa precisa ser investigada mais a fundo.

cartaz do 1º Seminário Nacional de Bordado da UNICAMP

A identidade também é feita de memórias. Um pouco de lógica aristotélica.  A identidade se constrói a partir de memórias. Por causa do celular estamos perdendo a memória. Logo, estamos perdendo a identidade, e talvez nos transformemos em um celular. Para construir uma identidade sólida é indicado estar bem resolvido com o seu passado. Na dúvida? Freud explica. Uma boa terapia ajuda. Se vale para o ser humano, vale para cultura de um país, que é feita por pessoas.

Reaprendendo a tecer... 
O artista Keith Hering dizia que admirava as crianças pela capacidade de se encantarem com as coisas simples do cotidiano. Se os tempos pedem renovação, literatura infantil é uma boa pedida para resgatar o olhar inocente. Estes três livros trabalham de um jeito muito bonitinho a metáfora milenar do "tecer".

"A Menina que Falava Bordado"
O livro ensina os principais pontos de bordados por meio de ilustrações relacionadas à dinâmica do ponto. Mais fácil vendo.









"Vestido de Menina"

Sobre os diferentes tipos de fios que tecem a vida e sobre os nós que se formam de quando em quando.








"Tecidos dos Contos Maravilhosos - Contos de lugares distantes"
Acho que usam este livro em escolas porque comprei em um sebo e estava escrito "Izabelle 6º ano". São fábulas de vários países, nas quais o ato de tecer e de costurar são metáforas para explicar algum aspecto da cultura local. Os que mais gostei foram: "Anaeet, a perspicaz", da Armênia e o "O Casaco de Retalhos", um conto judaico. Entre uma história e outra há um explicação sobre a tradição têxtil de cada região. Tapetes na região da Armênia e o patchwork na região onde está a Palestina e Israel. Será que a Izabelle gostou?



mais um!

*Eufrasia Teixeira Leite tem uma boa biografia romanceada  escrita pela Claudia Lage. Chama "Mundos de Eufrásia:a história do amor entre a incrível Eufrásia Teixeira Leite e o notável Joaquim Nabuco". Ela foi uma das primeiras a mulher a investir dinheiro na bolsa de valores e ele foi tipo o Mister Big dela. A revista Piauí publicou uma matéria também.

Em algum dia de 2015 o blog volta... Feliz Ano Novo!
Ah! (Quase) Todos os livros indicados neste blog estão listados aqui.


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