24 de julho de 2014

maquiagem-arte: entrevista com Theo Carias


maquiagem de massinha por @theocarias1

Intro.
O dia em que você olhou um retrato seu, tirado na surdina por terceiros, e percebeu que a cútis não tem mais o mesmo desempenho sobre o flash chegou. O Dorian Gray interno despertou e fez o pacto com BB Cream. É árdua a tarefa de admitir que o tempo está passando. O alívio vem quando fuçando na banca de jornal a matéria "bisturi de verão" (tipo tendência de plástica da estação) ainda lhe parece surrealista. Por hora viva o avanço da tecnologia cosmética indolor.

Mas e o "efeito batom"? Ele pode estar influenciando nossos desejos de consumo por produtos de beleza? Esse comparativo econômico (primo do índice Big Mac) analisa o desempenho da economia mundial sob o recorte do mercado da beleza. Quando a economia está em crise é mais comum comprar itens de beleza que costumam ser mais baratos do que as roupas, por exemplo. Se for mensurar todos os tutoriais de maquiagem do youtube publicados desde o inicio da crise dos EUA em 2008 até hoje, "efeito batom" é  um terremoto. Lembrando que para as grandes marcas de luxo as linhas de beleza são estratégicas. Não tem dinheiro para o tailleur? Um esmalte resolve seu desejo por Chanel.

A súbita necessidade por maquiagem me despertou também muita curiosidade sobre como o tema é abordado e retratado no mundo da moda. Fuçando nos meus livros encontrei um chamado "Extreme Beauty em Vogue", que ganhei de Natal do meu irmão e na época não dei muita bola. É na verdade o catálogo delux de uma mostra que aconteceu em 2009 reunindo fotos maravilhosas da Vogue América, assinadas pelos musos da fotografia de moda (Richard Avedon, Irving Penn, Helmut Newton, Steven Meisel e Klein). E quanto potencial como plataforma de expressão a maquiagem tem!

#bookdodia


Irving Penn, Agosto, 1990

Algumas fotos estão aqui neste vídeo:



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A entrevista.

Depois de entrevistar a Milly no post passado, fui bater na porta do Theo Carias. Além de ser o mago das sobrancelhas, ele desenvolve um trabalho autoral bem marcante na maquiagem. O conheci antes da crise de 2008, quando fiz uma pauta para revista Moda da Folha de São Paulo sobre "as cores das brasileiras". De lá pra cá muita coisa mudou. O mercado da beleza do Brasil se expandiu e  internacionalizou. E o Theo também mudou. Ele concentrou forças em seu estúdio (espaço muito charmoso por sinal) e passou a ministrar aulas de auto-maquiagem e de maquiagem criativa. Um pouco do papo tá aí:

(Desde antes da crise até agora) Vejo as mulheres brasileiras ousando mais...
Na maioria dos casos a inspiração vem de uma celebridade. No dia-a-dia, observando a rua, vejo pouca gente com uma maquiagem mais trabalhada.

Falando em copiar...
Vejo que tem muita informação de beleza, de imagens artísticas, e uma liberdade muito grande de trabalho, mas pouca identidade (no trabalho de boa parte dos maquiadores). Há muita cópia de referências de internet, do pinterest, de redes sociais (e todas geralmente muito retocadas). Percebo pessoas mais preocupadas em reproduzir do que buscar inspiração dentro de si para desenvolver um trabalho autoral. É importante estar informado e atualizado, por outro lado, tanta referência pode influenciar mal. Eu mesmo prefiro evitar ficar vendo muita referência (ou pelo menos, referências de maquiagem diretamente) para o trabalho emergir de maneira mais visceral.

@theocarias1

Maquiagem como plataforma de expressão...
Montei o curso para tentar ensinar os meninos como tirar a inspiração de dentro deles mesmos. Faze-los entender o que eles gostam de verdade para compreender o próprio DNA. Na primeira aula eles levaram um manequim para casa e criaram com massinha. Desssa forma pude avaliar o processo de criação deles, e por aí já observar a leveza da mão e a maneira como encaram as texturas. Foi interessante ver que alguns se propuseram a criar e outros copiaram. No curso também mostrei muita referência de artes plásticas, como o Mark Rothko, que eu gosto muito. A intenção era tentar fazê-los abrir a cabeça, e o coração, e tentar trazer as sensações que surgiam para a prática da maquiagem. Foi bem interessante. É essencial buscar a sua verdade para conseguir desenvolver um trabalho autoral.

decoração do estúdio de maquiagem @theocarias01

Recado aos jovens maquiadores...
Quando busco um assistente gosto de ver aquela ansiedade de participar e de mostrar trabalho, mas é importante ter repertório. Por exemplo, quando um diretor de arte pede uma maquiagem inspirada no modernismo, se ele não sabe do que se trata o termo não vai conseguir fazer o trabalho.

Hoje os maquiadores começam com tudo pronto...
Acho todo mundo era mais criativo quando tinha menos produtos de maquiagem. Quando comecei era preciso tirar leite de pedra para conseguir chegar aos resultados.

@theocarias01

Escolhi a maquiagem como forma de expressão...
Fiz decoração. Fiz roupa. A maquiagem foi para onde direcionei minha carreira quando cheguei em São Paulo (Theo é cearense). No começo ninguém acredita que você pode fazer tudo com gosto.

Momento vida real...
Hoje há uma preocupação em mostrar a "vida real". É legal, mas é preciso um pouco de devaneio para a criação. Hoje vejo que estamos vivendo um momento onde tudo está banal, mas acredito que há sempre um filtro natural que salva os trabalhos consistentes, com história.






maquiagem para campanha da Melissa

Equilíbrio entre maquiagem artística x vida real...
Meu carro chefe é fazer sobrancelha, mas sempre tenho a oportunidade trabalhar em produções que demandam uma maquiagem mais criativa. Na moda tento levar um pouco do artístico, ousar quando é possível. Não costumo funcionar muito bem quando me pedem para copiar igualzinho. Gosto mais de criar a partir de uma referência e desenvolver um conceito específico para trabalho que estou fazendo.

Theo fazendo arte.


Sobrancelhas...
Comecei a fazer as dos amigos e o Celso Kamura me deu o toque para levar a sério. Nem sempre a mulher pode estar maquiada. Falamos olhando no olho, então a sobrancelha deve estar arrumada. É a moldura dos olhos. O formato mais orgânico dá um ar mais suave ao rosto. As formas geométricas calculadas deixam o semblante artificial. Uma cliente de rosto anguloso tinha a sobrancelha com ares diabólicos. E ela se incomodava, dizendo que as pessoas faziam um pré-julgamento por causa disso. Fui mexendo aos poucos e seu rosto mudou. Porém, pelo contato próximo com as mulheres fico pensando se esse trabalho que arrumei não é uma desculpa para sentar e conversar todos os dias =).


Todos querem a mesma coisa...
Sou psicólogo e paciente. Atendo advogada, jornalista, fotógrafa. Elas vem aqui e quando tem aquele evento especial elas falam: hoje eu tenho que estar... linda! Todos queremos a mesma coisa: ser feliz, ser aceito e ser bonito.

Toda mulher tem algo bonito no rosto...
Pode ser uma mulher muito feia, mas tem os cílios longos, por exemplo. Não é fácil pensar assim, ainda mais se pensar nos padrões de beleza pré-estabelecidos. Tem que pensar no trabalho de beleza sempre como uma ferramenta para melhorar o que você tem.



Mulher pode tudo...
E é muito interessante esse universo feminino. É muito louca a vida de uma mulher... As auto-cobranças. É muito cruel. É um eterno "não pode": não pode se descuidar, não pode engordar, não pode ficar cansada... Dizem que as mulheres são loucas. Claro, com tanta coisa para pensar! Os homens têm uma posição muito cômoda na sociedade. Mulher é um bicho muito forte, muito danado. Incrível. Mulher tem que se pintar porque mulher pode tudo.

Um comentário:

  1. Amei a entrevista! Taí uma prova d q se vive do trabalho autoral sim!

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