30 de dezembro de 2012

camiseta autoexplicativa

Esse é o primeiro de três posts dedicados a artistas que conheci em Buenos Aires. Inauguro com uma entrevista ping-pong com o porto-riquenho Guillermo Rodriquez, 26 anos. Ele estudou arte em San Juan, Londres, e agora em Buenos Aires. Uma de suas obras usa a boa e velha camiseta branca como suporte. Ele estampa cada uma das páginas do famoso texto “O Capital” do Karl Marx em camisetas e as vende. O plano é o seguinte: “a mercadoria, explicar a mercadoria”. No papo a seguir ele me conta de onde tirou essa ideia.

Guillermo Rodriquez©


Para a gente entender o seu universo: quem são os artistas que você admira e que te inspiram?
As influencias são muitas e variadas. Vão desde do reggaeton “La Gasolina” do (conterráneo) Daddy Yankee até a ética de Spinoza (!), sei lá. É uma lista em eterna mudança. 

Guillermo montando a instalação "El Luthier"
Guillermo Rodriquez©
Por que você escolheu a camiseta como suporte para esta obra?
A camiseta tem uma relação direta com o corpo do espectador. O espectador deixa de ser espectador tão logo ele veste a camiseta. O design (neste caso a moda, a roupa) é sempre uma boa ferramenta para expandir a arte a outras esferas; como a arquitetura está para a performance, por exemplo. É divertido propor um diálogo entre diferentes disciplinas.

Por que escolheu “O Capital”?
Foi uma revelação (risos). A mercadoria (a camiseta) ilustrando o texto que descreve a forma como ela mesma opera. O resultado é um efeito loop. E como o ritmo de suas vendas determina seu ritmo de produção acentua esse aspecto cíclico.



"La Mercancia" - "A mercadoria" em espanhol, a primeira camiseta da série.


Cada peça é única, né?
É. Cada página é uma camiseta ou cada camiseta é uma página. A versão em inglês tem mais de mil páginas. Mesmo que pareça muito exclusivo e que haja só um exemplar de cada uma, a quantidade de páginas problematiza o conceito de ‘edição limitada”.

Guillermo Rodriquez©

Onde as camisetas são vendidas?
Geralmente em exposições de arte. Tenho vontade de vendê-las em lojinhas de museus e outros espaços comerciais. Recentemente foram vendidas na The NY Art Book Fair no MOMA.

Você leu “O Capital” inteirinho?
Antes de começar o projeto das camisetas havia tentado ler “O Capital”, umas três vezes, mas nunca passava do terceiro capítulo. Depois que comecei o projeto a dinâmica da leitura mudou. Agora o ritmo de vendas da camiseta determina não só o ritmo de produção, mas também o ritmo de leitura.

***
apenas uma rapariga latino-americana...

Voltei de Buenos Aires e São Paulo me recebeu de tráfego aberto. Ainda bem. Mensurar tudo que trouxe da experiência de estar 11 meses na capital da Argentina ainda é difícil. Para quem acompanha o blog e perdeu essa parte, conto que fui pra lá trabalhar por alguns meses e prolonguei minha estadia para realizar o sonho de estudar roteiro no país cujo cinema sou fã.

O tempo que estive por lá foi incrível principalmente porque tive a oportunidade de conviver com pessoas lindas, e com as quais aprendi muito. O bom nível da educação superior (gratuita ou a mensalidades baixas) atrai gente da América Latina inteira. Por isso é possível conviver com gente do Chile, da Venezuela, da Colômbia, de Porto Rico, além de europeus aventureiros. Foi riquíssimo trocar experiências com nossos hermanos latinos. Temos tanto em comum. Sabe... depois do 11 de setembro, o brasileiro começou a babar menos ovo para os EUA e para a Europa,  valorizar sua própria cultura e buscar referencias diversificadas.

Nas artes visuais e no cinema ouvir espanhol é uma realidade acessível aos brasileiros... Na moda... bem, a moda ainda prevalece o inglês e o francês. Longe de qualquer ufanismo, vale lembrar que tanto o Brasil e todos os Hermanos não têm tradição de design de moda, apesar de terem indumentárias típicas aos baldes. Hoje o desafio da dita “economia criativa” é unir esses dois mundos. Outro ponto interessante a ser observado são as crises econômicas como componente histórico de toda América Latina. Basicamente é o continente do “se vira”, e assim, surgem negócios improváveis e soluções criativas. Há, portanto, novidades pipocando aqui e alí, e todo um universo da moda latina a ser desbravado.

Um comentário:

  1. Nossa eu achei muito legal isso! Eu também adoro o cinema argentino e a America latina me encantam muito,
    Acho que acabei chegando no local certo pra conhecer mais a moda desses locais. Me identifiquei com você, gostei muito do blog. abraço

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.