23 de fevereiro de 2012

o figurino falante

No post anterior escrevi sobre como as roupas costumavam ser valiosas e inclusive eram objetos de penhor até o século passado. E não é que isso é representado literalmente no filme "O Artista"?

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"O Artista" (2011) Direção: Michel Hazanavicius

Figurino é um das categorias as quais o longa-metragem preto-e-branco, e mudo, concorre no Oscar do próximo domingo, dia 26/02. Mark Bridges foi responsável pelo guarda-roupa de "O Artista", e acaba ganhar o Bafta pelo trabalho. Também criou os trajes de produções como "Magnólia" (1999), "A Pele" (2006 - esse figurino serviu de inspiração para a Gloria Coelho em seu inverno 2008 no SPFW), e "Boogie Nights" (1997 - um filme bastante citado recentemente graças a atmosfera 70's que assolou a moda). A Academia costuma gostar de premiar filmes "de época", no entanto, a figurinista da Madonna, Arianne Phillips (que veio ao Pense Moda ano passado), pode ser a pedra no sapato de Bridges. Ela concorre com "W.E.", o filme dirigido pela pop star que conta a vida de Duquesa de Windsor e já nasce no páreo de filme mais fashionista do ano. Ontem Phillips ganhou o prêmio de "figurino de época" do Sindicato dos Figurinistas, que costuma ser a prévia do Oscar. 

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Mark Bridges na 20º Exposição Anual de Figurinos do FIDM Museum em Los Angeles

Em um filme mudo a direção de arte e o figurino têm importância redobrada porque ajudam a substituir uma entonação de voz, e outros recursos utilizados na construção dos personagens. Em "O Artista" ambos são feitos de maneira brilhante, resgatando a inocência e as sutilezas visuais da Holywood de outrora. A ascenção de Peppy Miller (Bérénice Bejo) como atriz é demostrada pela posição em que seu nome aparece nos créditos dos filmes, e também pelo acréscimo gradual de fluidez, brilho, plumas e peles em seus figurinos. Os chapéus são outro indicador de crescimento. Já a decadência de George Valentin (Jean Dujardin) é explicitada por sua troca de figurino, do duo casaca e cartola, ao paletó com ares de estopa.

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O diretor do filme Michel Hazanavicius disse à Interview que gostaria fazer um filme mudo para testar sua capacidade de contar uma história por meio de imagens. "Em seu modo mais puro", e também, refutar a ideia de que se tratam de narrações reservadas a cinéfilos e intelectuais "É o oposto. É sensual", afirmou. Afinal, vale lembrar que no início do século XX, o cinema era o principal veículo de comunicação de massa.

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Bérénice Bejo (de Gucci), Jean Dujardin, e Michel Hazanavicius;
Foto: Steven Pan para Interview
A atriz e o diretor são um casal na vida real. Ela é argentina de nascença. Suspeito que ela estará no desfile de inverno Chanel em alguns dias. Ele dirigiu um filme chamado OSS 117: Lost in Rio, sobre um espião francês trabalhando no Rio de Janeiro.

"O Artista" é ambientado entre o final da década de 1920 até meados dos anos 1930, quando o cinema evoluiu do mudo para o falado. Foi uma época muito revolucionária para moda. Porque houve uma quebra de paradigma, nas formas, nos acabamentos. Foi quando as roupas ficaram realmente modernas e adequadas a intensa vida urbana que se desenvolveria dalí em diante, e consequencia de uma primeira pequena revolução no comportamento feminino. Ah! Outro filme cujo figurino retrata os anos 20 lindamente é "Meia Noite em Paris" do Woody Allen, também contemplado com indicações nesta edição da premiação da Academia (não figurino, infelizmente).

Na entrevista "O Artista por trás de 'O Artista'", concedida à Janet Kinosian do, Los Angeles Times, Mark Bridges contou como foi o seu trabalho no longa. Traduzo aqui:

O que você pensou quando leu pela primeira vez o roteiro e viu que seria um filme preto-e-branco e mudo?
Meu primeiro pensamento foi: "Ótimo! Pode ser um contraponto para essa geração do computador, todos esses recursos eletrônicos e novos padrões de 3D. Vamos voltar ao básico". E de fato ficou muito bom. Acho que estava pedindo para fazer algo do tipo.

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Sua pesquisa foi mais fácil, uma vez que você iria filmar em Los Angeles? Eu tive oito semanas de pesquisa em L.A., e pude lançar mão de lojas de fantasia, alfaiates, modelistas e borbadeiras que trabalham com este prazo. Funcionou muito bem. Eu criei um livro repleto de fotos de referências para mostrar ao diretor, a equipe de arte e aos meus assistentes. Eu sempre faço isso nos meus filmes, e todo mundo gosta de ver.

Podemos ver em George Valentin (Jean Dujardin) e Peppy Miller (Bérénice Bejo) referências de astros do cinema mudo?
Eu e o diretor chegamos a mesma conclusão que a Peppy estaria para a Joan Crawford que começou na MGM em 1925. Primeiro com pequenos papéis. Foi ganhando espaço e conquistando o público. Ela despontou em "Our Dancing Daughters". E para o George usei fotos de John Gilbert, com o qual senti uma elegância similar e a mesma trajetória na carreira. Também usei fotos de bastidores do Douglas Fairbanks.

Como a ausência do som e a tela em preto-e-branco influenciaram seus figurinos?
Na verdade, o silêncio foi bastante libertador porque você não precisa mais se preocupar com os microfones roçando no tafetá ou pendurado nas jóias. Quanto as cores, eu tirei fotos em preto-e-branco dos tecidos para ver como eu imprimiriam na tela. O vestido que a Peppy usa no primeiro encontro com George é um laranja luminoso, mas aparece como aquele tom cinza médio maravilhoso, e eu construí o contraste com o colarinho e o chapéu cloche. the-artist-11 the-artist-10
Figurinos em de "O Artista" em cores

Você também teve que criar o figurino de um filme preto-e-branco e mudo, dentro do filme preto-e-branco e mudo. Como você conseguiu?
Eu logo descobri que as texturas fariam a diferença e iriam contar a história. Você pode não notar de cara, mas se assistir ao filme uma segunda vez vai ver que o figurino do filme (dentro do filme) é um pouco mais opaco que o da vida real (dos atores no filme). E para comunicar isso no filme abusei de lantejoulas, miçangas, etc. Contando a história por meio de texturas, você desenvolve a linguagem de maneira relativamente rápida.

Michel (Hazanavicius) também queria valorizar o auge dos atores. Há muito contraste entre eles, e nos outros momentos eles ficam na média. Quando George está usando gravata e a casaca, Peppy está com um vestido valor médio. E no final quando Peppy o salva, está usando pele e um vestido em tom pastel. No momento do encontro na escada, quando ela está subindo na carreira, ela está de branco puro, e ele está descendo, seu figurino se mistura com o fundo do cenário. Assim, o contraste é uma forma de contar a história.

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Quando você olhou os arquivos de roupas dos anos 1920s, o que mais te surpreendeu em relação ao período?
No guarda-roupa feminino foi o fato das roupas serem aparentemente simples e com os cortes extremamente complicados. Alguns vestidos que fizemos para Peppy a costura ia em três direções, o corpo reto as mangas em viés e a saia também em viés. Você nunca imagina isso para um vestido simples, muito simples.




***
Depois de ver "O Artista" lembrei da norte-america Penélope Umbrico, cujo trabalho conheci no ano passado. Ela resolveu brincar com a popularização da criação de fotos despejadas aos milhões diariamente em flickrs, instagrams e facebooks, e propor outros significados à elas. São tantas, mas tantas imagens que não são passíveis de observação, e tampouco há motivo para isso, tendo em vista que o objetivo da grande parte delas é auto-contemplação, e estão fadadas ao esquecimento na próxima atualização de timeline. Agora, brincando de crítica de cinema, considero que uma das "mensagens" de "O Artista", se relaciona com o trabalho da norte-americana a medida que relembra e pontua o valor precioso das imagens, e sua capacidade de contar histórias. Belas histórias.

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