19 de maio de 2011

de caso com Debret

Passei quase um mês olhando e analisando as imagens do pintor francês Jean Baptiste Debret. No começo achei tudo incrível, mas depois começaram as crises.

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auto-retrato de Jean Baptiste Debret

O motivo dessa relação curta, porém, intensa foi um seminário para um curso que estou fazendo desde março que tem como objetivo aprender a ler imagens. As aulas vêm subvertendo tudo que achava que sabia. Hoje posso dizer que fico com um medinho de encarar uma obra de arte (ou uma foto) tamanho o número de informações que um quadro composto por três pinceladas pode carregar. O "só sei que nada sei" nunca fez tanto sentido. Contudo, o benefício de zerar o placar é construir algo novo, né? E por isso resolvi compartilhar com os meus queridos leitores o que aprendi estudando Debret. E ao longo do post você vão entender porque ele está super relacionado com a moda.

Vamos por partes*
*trabalho acadêmico que se preze, tem que ter notas, e, no caso, são interpretações livres da autora aqui.

Nunca ouviu falar de Debret? *
*Ótimo. Está em cartaz aqui em São Paulo na Caixa Cultural da Paulista, até o dia 19 de junho, a exposição "Viagem ao Sul do Brasil". A expo reúne aquarelas e litografias que o pintor francês realizou nas viagens que fez pelo Brasil. A obra brasileira dele está quase toda no Museu da Chácara do Céu no Rio de Janeiro, e aos baldes na internet e no livro didático mais próximo.

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"Laguna vista do Hospital", Aquarela de Debret que está na expo.

Jean Baptiste Debret chegou ao Brasil em 1816 e ficou por cerca de 15 anos*.
*Lembrando que: em 1808 a Família Real Portuguesa aportou por aqui fugida do avanço de Napoleão Bonaparte e que em 1822 D. Pedro I proclamou a Independência do Brasil. Ou seja, ele pegou justamente o período onde o Brasil deixa de ser colônia e começa a tomar forma de país (particularmente adoro essa parte da História).

Na França Debret era uma representante da pintura neoclássica. Era primo e discípulo de Jacques Louis David, pintor muito ligado à revolução francesa (1789) e depois a Napoleão e sua corte.**
*Fruto dos ideais da Revolução Francesa (liberdade, fraternidade e igualdade), essa corrente artística faz a "releitura" da Antiguidade Greco-Romana, e os valores da república. Logo os artistas voltam a fazer representações da história daquele período. Na moda: a mulherada deixa de lado os espartilhos e passa a apostar na silhueta solta e no decote império logo abaixo do busto, e no cabelo solto, como as gregas. Já os homens, vão no caminho oposto. Os trajes ficam mais justos, com ares militares, próprios de tempos de lutas revolucionárias.
*Não confundir o neoclássico francês com os prédios "neoclássicos", aqueles cor-de-burro-quando-foge, de alto padrão, com pet-care e espaço gourmet, que crescem como mato em São Paulo e muitas outras cidades do país (#ficaacritica).

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Jacques-Louis David

Como representante do estilo neoclássico francês ele carregava consigo alguns preceitos: valores políticos liberais (da Revolução Francesa), sua pintura estava muito ligada à representação histórica e a tradição acadêmica

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Jean Baptiste Debret - parentes, né?

Ele veio ao Brasil como integrante da chamada "Missão Francesa", que tinha o objetivo de fundar a Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro*
*A verdade é que ele perdeu o único filho, se divorciou, e Napoleão, que ele apoiava, tinha perdido o posto. Além disso não era um pintor super reconhecido na França. Portanto, não foi exatamente uma escolha, e sim a opção. Os objetivos e trajetórias dos integrantes da comitiva francesa no país não seguiram o mesmo rumo, assim o sentido de "Missão", não é exatamente válido.

Chegando no Brasil, na qualidade de europeu, tinha regalias, e tem uma proximidade natural com a corte e a Família Real Portuguesa. Apesar de trabalhar muito para eles, sua obra principal está ligada ao cotidiano do Brasil. Ele teve um notório interesse pelos escravos*
*Ele não era exatamente um admirador de D. João VI e sua turma, uma vez que era partidário de Napoleão. Tinha valores liberais que não apreciavam muito a escravidão.

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Coroação de D. Pedro I - Jean Baptiste Debret

Sua obra brasileira é composta principalmente de aquarelas e litografias. As técnicas eram consideradas pela tradição da academia de artes francesa menos nobres que o "Óleo sobre tela". Suas pinturas brasileiras são de formato pequeno*.
*Vendo que não dava pra colocar em prática suas idéias liberais e sua herança neoclássica, e como os temas brasileiros não eram (aparentemente) "grandiosos" o suficiente para honrar a tradição da pintura a óleo, ele resolveu achar um novo caminho (tem quadros óleo feito aqui tb!). E também que por questão de logística nas viagens era mais fácil carregar aquarela e papel do que telas. Ah! A tinta a óleo era bem cara por aqui também.

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Assim viajou por alguns cantos do Brasil e tentou pintar tudo que via. Sua obra retrata ações, cenas, rostos, objetos. De certa forma ele tentou isolar cada fragmento da sociedade brasileira para mostrar aos franceses, nos três volumes de "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil", como estava estruturada.*
*Ele trabalhou para a corte, porém, seus relatos de viagem tinham como objetivo ganhar visibilidade ao seu retorno à França, e não ficar ao Brasil. Os livros são compostos de imagens, e para cada uma ele escreveu uma explicação. Nem toda explicação corresponde exatamente a pintura representada. Em alguns casos ele também aproveita para contar uma fofoquinha do Brasil.

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Ao descrever essa imagem que representa como se vestiam as damas da corte, Debret aproveita para contar a fofoca do caso de D. Pedro I com a Marquesa de Santos.

E a moda? Além de retratar os costumes da época, Debret também criou trajes para o corte portuguesa.

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Vestido criado por Debret para a coração da princesa Leopoldina, primeira mulher de D. Pedro I

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Reprodução do mesmo vestido para a exposição: "Mulheres Reais"

A obra de Debret até hoje é uma grande referência para os diretores de arte criarem cenários e figurinos para filmes que se passam no Brasil do século XIX.
*Ele veio ao Brasil fundar uma Academia de Belas Artes. Até então o nosso país não tinha tradição na produção artística. Existia o artesanato e obras do Aleijadinho, para citar o mais óbvio. Se formos pensar, até hoje, o artesanato é pouco valorizado e, só há pouquíssimo tempo os brasileiros começam a babar menos ovo para o que vem de fora. Imagina como era no século XIX? Em resumo, temos poucos registros pictóricos dessa época.


No final me entendi com Debret. Mas mesmo sabendo de tudo que tem por trás de suas aquarelas, e perdendo a inocência do olhar, não pude deixar de admirá-las. Os miniquadros carregam algo inocente também. A tentativa de um estrangeiro intoxicado por uma civilização com referências e história de mais de 1000 anos, mostrando um país ainda embrionário. Não nasceu uma paixão, mas somos amigos agora.

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E nas pesquisas por Debret acabei encontrando esse editorial feito para a exposição "Mulheres Reais", de 2008, e publicado na Revista Key, editada pela Erika Palomino. As lindas fotos são do Lucas Bori.

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E já que meu olhar está perdendo a inocência, confesso que na hora que vi lembrei mais do fotógrafo Pierre Verger, outro francês que zanzou por aqui. O que não é, nem de longe, ruim.


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pra ler...

(1) Catálogo da exposição "Mulheres Reais", curadoria da figurinista Emilia Ducan e de Claudia Fares. Tem inteiro na net: aqui

Vale a pena rever a exposição: aqui

(2)"Jean Baptiste Debret: Caderno de Viagem"
Autor: Julio Bandeira
Editora: Sextante

(3)"Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil"
Autor: Jean Baptiste Debret
Editora:Itatiaia (3 volumes)

(4)"A Forma Difícil: Ensaios sobre a Arte Brasileira"
Autor: Rodrigo Naves
Editora: Ática

Um comentário:

  1. oi Laura. Numa visita ao Itamarati, há uns anos atrás, fiquei sabendo que as poucas obras de Debret, coloridas, estavam expostas lá. Não sei se continuam.
    Linda a sequência de fotos...e os colares...

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