28 de abril de 2011

Lições de vida com Pierre Cardin

Ouvindo Pierre Cardin falar lembrei daquela letra "Eu nasci há 10 mil anos atrás, e não há nada nesse mundo que eu não saiba demais". Essa analogia parece inoportuna a primeira vista, mas fará sentido ao longo do texto. Prometo. Serve nem tanto pela idade (na categoria "melhor idade produtiva", o Niemeyer está na frente), e mais por ele ter vivido grandes momentos históricos. O designer ainda se auto intitula "costureiro" e se considera o mais velho estilista parisiense na ativa.

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Semana passada tive o prazer de ver Cardin falar duas vezes. Na coletiva de imprensa e na palestra aberta ao público, ambas no Shopping Iguatemi, onde está em cartaz, até o dia 29 de maio, a exposição "Pierre Cardin: Criando Moda Revolucionando, Costumes".


Fiz duas materinhas para o modaspot sobre a palestra:

Pierre Cardin divide suas experiências em palestra no Shopping Iguatemi

Confira entrevista exclusiva com o estilista Pierre Cardin



Italiano radicado na França, Cardin queria ser ator. A moda parecia um bom caminho como ganha-pão. Trabalhou nas maisons de Elsa Schiaparelli, Lucien Lelong, e na Dior, onde "ajudei a fazer ' new look' ", revelou na palestra (não sabia disso fiquei emocionada). Em 1950 criou sua grife. Mais tarde ele se tornaria dono de teatros, diretor e produtor de espetáculos, figurinista e, sim, ator. Ele veio ao Brasil nos anos 70 atuar em "Joanna Francesa", ao lado da amiga Jeanne Moreau, dirigido por Cacá Diegues (e trilha do Chico Buarque).




O legado do "costureiro" começa a ser consolidado nos anos 60. Na época o mundo era bipolar, EUA (capitalista) x União Soviética (socialista). A disputa entre as duas potências tinha como uma das principais vitrines a corrida espacial. A atitude de Cardin na moda é um grande reflexo desse momento.

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"Tinha muito interesse pelo socialismo. A idéia da igualdade me atraia, mas sempre soube que não era possível". A maneira que encontrou se aproximar um pouco dos vermelhinhos, foi investir no prêt-à-porter, e desdenhar a alta-costura. Seu argumento: "pouca gente tinha dinheiro para comprar alta-costura".

Em seguida, descobriu nos licenciamentos uma forma de popularizar sua grife. Emprestou seu nome e sobrenome para produtos muito variados. "Tive até sardinha licenciada com minha marca", e justifica dizendo: "Para quem viveu a Guerra, o alimento tem muito valor". Assim ele lançou a ideia hoje lapidada pelas redes de Fast-Fashion. Na minha humilde interpretação observo, porém, que "alugar" seu nome foi uma faca de dois gumes. Ele se entupiu de dinheiro, todavia, enfraqueceu sua marca, uma vez que ela perdeu a tal exclusividade, fundamental para criar desejos na moda.

Perguntei para o taxista que me levou para casa na volta da palestra, o que ele conhecia sobre Cardin: "é uma marca de ternos". Aqui no Brasil, por exemplo, Pierre Cardin é sinônimo de moda masculina, graças aos licenciamentos.


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Quando o assunto era a conquista do espaço sideral, Pierre Cardin não tinha predileção entre Yuri Gagari e Neil Armstrong. Sua coleção "Cosmocorps", de 1967, lançada dois anos antes do homem pisar na Lua, é um marco na história da moda.

Cardin estudou arquitetura, mas não chegou a se graduar. Sempre foi fã de formas geométricas, especialmente as circulares, como os planetas e seus satélites naturais.

Uma informação curiosa: o designer Philippe Starck, trabalhou com Cardin desenvolvendo mobiliário.

Ao lado de Paco Rabanne e André Courrèges, ele formou uma tríade futurista da moda nos anos 60, que além das estruturas também inovou no uso de materiais: plástico, metal, além dos tecidos sintéticos derivados de petróleo.

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Os passaportes de Cardin devem acumular muitas folhas extras, porque ele conheceu os cinco continentes. Em suas duas palestras ele ressaltou seu interesse em conhecer pessoas, e o contexto socioeconômico de cada país. Essa experiência o fez apostar em mercados, hoje emergentes, e na época de terceiro mundo, como China e Brasil. Ah! Ele foi embaixador da UNESCO.

A fama e a intensa relação com as artes possibilitaram conhecer líderes políticos e astros de todas as épocas. Em 1963, vestiu Paul, John, George e Ringo. Então bons moços, os Beatles cantavam "All My Loving", mas já queriam uma alfaitaria diferenciada. Em 2009, Lady Gaga usou uma criação sua no clipe "Love Game".











Em setembro de 2010, Cardin desfilou a coleção primavera-verão 2011 na semana de moda de Paris depois de 10 anos de ausência. Hoje a grife tem três lojas: Paris, Tóquio e Taiwan e cerca de 750 licenciamentos.





O conteúdo da expo em cartaz em SP está no livro "Pierre Cardin: 60 anos de Criação", de Jean-Pascal Hesse.





Aos 88 anos, ele tem a licença poética de responder as perguntas como bem entende. É enfático em dizer: "dediquei minha vida ao trabalho". Excessos mundanos como álcool e drogas não fazem parte de seu vocabulário. Ele é o único dono de um império com o seu nome, e vive a difícil situação de não contar com alguém para continuar seu trabalho. "Gostaria que minha marca continuasse depois da minha morte". Sua empresa está à venda.

Defensor da originalidade como principal característica de um designer, Pierre Cardin carrega o mérito ser fiel a sua própria criação. Leva com orgulho a certeza de ter vivido intensamente e realizado sonhos. Aqui cabe outro refrão: "o importante é que emoções eu vivi".

2 comentários:

  1. Nossa que post show, pra quem gosta de saber um pouco mais da história, muito interessante!

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  2. MEU DEUS DO CÉU! que post é esse! vi tua palestra no Moda Camp e só agora caiu o papel aqui na minha frente! Estou tentando manter um blog, mas o teu certamente é inspirador! Parabéns, delicioso ler tudo isso!

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