3 de dezembro de 2010

o lado "F" de Jorge Wakabara

Nesse promoeditoral afetivo, eu converso com Jorge Wakabara, que além de ser jornalista e editor do site da Lilian Pacce, também é figurinista nas horas vagas. Na entrevista a seguir ele me conta como é esse seu lado "F" e ainda de lambuja dá uma super lista de filmes cujos figurinos são realmente imperdíveis.

Jorge Wakabara em noite de gala, foto: Felipe Abe


Jorge, me conta primeiro como surgiu esse seu interesse por figurino?
Nunca surgiu hahahaha Na verdade a Veronica (Veloso), que é a diretora da peça, foi quem me convenceu a fazer figurino dos projetos que ela faz desde o "Isaura S/A", lá em 2008. De lá pra cá rolaram "O Disfarce do Ovo" e depois "O que ali se viu", sempre com a Verô, no que a gente chama de "coletivo técnico", que também inclui a Renata Velguim na cenografia e comunicação gráfica e a Taty Kanter na iluminação. Ou seja, a verdade é que eu não faço figurino, eu faço figurino pra Veronica, especificamente! hahaha Nunca rolou de eu fazer pra qualquer outra pessoa ou projeto.

"O Disfarce do Ovo"

Você já fez o figurino da peça "O Disfarce do Ovo" e agora está em cartaz com "O que alí se viu". Como é o seu processo de trabalho?
O processo que a gente trabalha (prefiro falar a gente incluindo o coletivo, não é pedantismo!) é sempre coletivo e pelo menos a médio prazo. Ou seja, tem um tempo de criação e maturação que todo mundo acompanha. Por isso que existe uma coesão de linguagem: eu diria que a gente "se conhece bem artisticamente", e criativamente. Na prática, assim que o processo criativo com os atores começa a gente já vai acompanhando, indo nos ensaios, vendo o desenvolvimento. A partir daí vão surgindo insights, ideias. É importante dizer que eu não "visto" a peça, todo mundo veste junto comigo, é uma troca de ideias e informações. A gente odeia só a ideia de que um ator vai se sentir desconfortável num figurino, por exemplo - ele tem que se sentir bonito, se sentir bem, concordar com a roupa. Ou seja: claro que eu trago muitas ideias, mas faz parte do processo os atores, o resto da equipe e especialmente a Verô darem ideias também.

O que vc preparou para "O que ali se viu"?
Bom, no caso específico do O que ali se viu, o processo precisou ser mais rápido porque a gente tinha um prazo, uma grana de produção etc. A Veronica conversou com os atores primeiro pra perguntar o que eles gostavam de vestir, o que eles gostavam de valorizar no corpo deles. Ao mesmo tempo, eu comecei uma pesquisa de indumentária de nobreza e aristocracia, porque tem essa coisa no texto das Alices (das Maravilhas e do Espelho) de reis e rainhas, e ao mesmo tempo também queríamos fugir da imagem de "teatro mambembe" - a gente já sabia que a montagem ia acontecer ao ar livre, então o figurino precisava ter uma imagem "fina" pra contrabalancear. Juntamos todas as informações e eu fui sugerindo. Uma referência bem grande foi o trabalho da Chanel, não na forma de uma pesquisa aprofundada, mas os clichês que a gente tem da Chanel na cabeça: o marinheiro, as listras, o debrum na alfaiataria, o preto e branco... E depois houve bem poucas mudanças, na verdade, o que é surpreendente em um grupo de 10 atores!

"O que ali se viu"

É uma peça infantil, nesse caso, você teve alguma preocupação especial?
Olha, sinceramente não. Mesmo porque não faz parte do meu gosto pessoal nada vulgar. Talvez eu tenha procurado me segurar no lúdico, inclusive, pra não ficar infantilóide. Essa referência da Chanel, um look que eu confesso que pra mim é super Gloria Coelho feelings (o da Claudia, que faz a cena dos espelhos) e uma outra referência distante ao Balenciaga no look da cena do Humpty Dumpty - acho que esses são exemplos de que a gente considera que a peça é dirigida pra crianças mas isso não é razão pra usar só referências infantis, ou nivelar por baixo em qualquer coisinha fofinha pra criancinha cheia de clichês.




Você costura as roupas?
Terceirizo sempre. Não sei pregar um botão hahahaha E dessa última vez a gente teve a produção luxuosa de João Pimenta. Ficou lindo também graças a ele! João foi um fofo, comprou a ideia super, achou tudo lindo e fez tudo no capricho com as costureiras dele. A gente amou. Ele não sabe, mas agora ele vai produzir nossos figurinos pra sempre. hahahaha

Depois que a peça estréia você pensa em modificações no figurino?
Mais em ajustes do que em modificações. Mas depende, às vezes a gente sente que não rolou depois de ver em cena. Esse foi o caso de "O Disfarce do Ovo", que teve duas levas de figurinos completamente diferentes. O mais engraçado é que o 2o tem muito mais a ver com os outros dois que eu fiz, e nos deixou muito mais satisfeitos. Agora não sei se é estilo ou vício de linguagem... hahahaha





Quais figurinos memoráveis pra você?
Então, na verdade os figurinos que mais me marcaram são do cinema, e não do teatro. Vou explicar mais isso em seguida. Mas enfim: AMO o figurino de "A Bela da Tarde", sou apaixonado pelo figurino de "O Bandido da Luz Vermelha" do Sganzerla - ambos porque, além de belos esteticamente, conversam com a narrativa de maneira ativa, no sentido de adicionar elementos na trama. Mas tem muitos outros: adoro a cartela de cores de "Satyricon" do Fellini, adoro a modernidade e jovialidade do "Flashdance", acho lindíssimos os figurinos que Yohji Yamamoto fez pro Takeshi Kitano (mas sou suspeito porque amo o trabalho dos dois), adoro o uso dos clichês da Chanel em "De Salto Alto" do Almodóvar, e quero muito assistir "As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant" do Fassbinder, algo me diz que esse vai entrar na lista dos meus figurinos preferidos. Diz que é meio decadente-cafonão (a Petra é uma estilista na trama). Devo ter esquecido cerca de outros 30, poderia ficar citando mais e mais!

Tem aquele jargão... "vá ao teatro, mas não me convide", o que vc acha disso? Qual seu argumento a favor do teatro?
Então: não posso julgar. Porque eu mesmo vou pouquíssimo no teatro. Geralmente é meio caro, geralmente tem muita porcaria. Teatro é difícil, mesmo. A favor do O que ali se viu, eu tenho a dizer que é um teatro diferente do que você espera da "teatralidade". O que também era o caso de Isaura S/A e de O Disfarce do Ovo... Uma das coisas que sei é que pessoas que geralmente falam mal de teatro e acabaram indo nessas peças saíram meio balançadas, meio mudando o discurso... Não vou falar mais senão vai parecer que eu tô puxando sardinha pro meu lado. Tem que ir e me falar depois o que achou! hehehe

Você quer dizer mais alguma coisa, fica a vontade...o espaço é seu.
Sei lá, acho que sou um figurinista diferente. Acho que eu faço figurino que nem edito, então acaba meio que virando... uma coleção de moda? hahaha Acho que é mais ou menos o que eu faria pro outono-inverno 2010 (no caso, a coisa foi criada nesse timing). hahahahaha
E também queria dividir uma questão: não faço ideia porque eu fiz um macacão pro O que ali se viu. Eu tinha prometido pra mim mesmo que nunca mais faria um macacão. É muito difícil, você não imagina: tem que ter um tamanho de cavalo ideal pra dar pra agachar mas ao mesmo tempo não ficar feio, e um tecido resistente... Um carma! Mas esse até que saiu facinho, era de menino e podia ser largão. hahaha

"O que ali se viu"
até 12 de dezembro
Sábados às 16:00
Domingos às 11:00

Sesi - Vila Leopoldina
Rua Carlos Weber, 835 - Vila Leopoldina
Gratuito - retirar ingresso com 1 hora de antecedência

4 comentários:

  1. Ótimo blog,super informativo estou me deliciando com as postagens.Parabéns!
    Mas o que acho engraçado do Jorge é que ele mostra uma face que na real ele não tem,tudo dele é que não gosta disso ou daquilo mas está dentro da moda,para mim quem não gosta e quem não curte fica longe desse meio e vai buscar outros caminhos.Com todo respeito mas ele fica dando uma de não corri atrás,não busquei enfim tudo surgiu.Vamos parar de ironia pois na moda não tem como nada acontecer organicamente quando não se é filho de Gloria da vida,então se todo mundo que está no meio,trabalha com moda e está no fervo também,correu atrás,sofreu e ainda sofre pois não ache que porque trabalha no site da Lilian ou outro canal que ganha bem porque é fato não ganha,mesmo tendo especializações e afins,quem realmente ganha são os donos o mesmo acontece com assistentes de estilista.É ilusão falar que esse povo é rico porque não é verdade,vivem na pindura,compram super pouco e nao consomem o que eles tanto aprovam.Entao vamos alertar mais para esse pessoal e esse mundo de ilusões que eles vivem.Beijos

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  2. hã? nossa, nem vou comentar esse comentário pq eu não entendi... hahahaha só queria dizer que não sou rico e nunca disse isso! HAHAHA

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  3. Adorei seu blog... Entra ai e me segue,bjus...
    http://overdosevip.blogspot.com/

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  4. Que legal a entrevista! Gostei muito de ver as referências e saber um pouco sobre o processo de criação em equipe. Figurino pra palco (teatro ou dança) é essencial que todas as partes conversem bem... cenário, luz, figurino.

    Agora, quanto ao comentário do anônimo eu realmente estou tentando entender de onde vieram essas "verdades" como: "jorge mostra uma face que na real ele não tem", "na moda não tem como nada acontecer organicamente quando não se é filho de Gloria da vida", "vivem na pindura,compram super pouco e nao consomem o que eles tanto aprovam". Difícil afimar que o Jorge mostrou ser uma coisa que não é baseado nessa entrevista sobre figurinos (a não ser que você o conheça super bem, o que dúvido um pouco que seja verdade). Também é muito difícil afirmar que nada acontece por acaso, ou organicamente, como voce diz, ainda mais usando como exemplo Pedro Lourenço que é sim filho de Gloria e Reinaldo, mas é também um talentosíssimo criador. Agora vai falar que Stella só é famosa por causa do Paul também???? E pra finalizar: acho que não cabe a ninguém aqui discutir quanto cada pessoa ganha, seja editor de moda, jornalista ou assistente e se com esse dinheiro consegue "investir" ou "consumir" moda. Cada pessoa tem uma realidade diferente, e cada pessoa tem suas prioridades. Talvez eu ganhe bem e almoçe todo dia miojo só pra comprar uma roupa maravilhosa no fim do mês, talvez eu só jante em restaurantes finos e use roupa de bazar de igreja, isso é uma escolha de cada um, e não cabe a ninguém, nem anônimos nos comentários julgar, não é mesmo?

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