9 de setembro de 2010

O Rei do Costume

Ricardo Almeida tem sangue de comerciante, é o responsável pelos trajes do presidente Lula e tem faro apurado para descobrir o que os homens querem

Uma das primeiras lições que se aprende conversando com Ricardo Almeida é a definição correta do terno. Paletó e calça são, na verdade, chamados de "costume". Por definição, o terno é composto por três peças. Além da calça e do paletó, há o colete. Essa foi uma entre tantas coisas que o estilista paulistano aprendeu em 27 anos de existência da marca que leva seu nome.

© Luiza Sigulem

Agora, aos 55 anos, está aprendendo a ser empresário da noite. Está sob seu comando o B4 (lê-se before), um misto de bar e casa noturna inaugurado em 2009. Localizado na Rua Amauri, em São Paulo, o lugar reúne público seleto e endinheirado, disposto a pagar pela exclusividade. Ele já tira a nova atividade de letra. "É cem vezes mais fácil. Confecção é o ramo mais complicado que existe. Tenho certeza absoluta. Além dos muitos impostos, você ter de se preocupar em fazer o produto com o melhor custo-benefício, tem de acertar sempre. A crítica de um veículo de peso pode comprometer a empresa. Além disso, se você demora três meses para entregar, já mudou a estação", ensina com calma algumas contas da complicada equação da moda masculina.

O ateliê de Ricardo Almeida fica no luxuoso bairro da Vila Nova Conceição. Serviu de moradia para o estilista, por isso ele não tem o menor problema em dormir no local de trabalho. Além de cama, banheiro e cozinha bem equipados, o lugar ainda conta com um subsolo adaptado para festas, com direito a patrocínio do uísque Chivas. Ele foi nomeado embaixador da marca de bebidas no Brasil. A mesa de sinuca é a estrela do salão. O jogo entra na lista de passatempos do criador. O savoire faire em promover festas recheadas de VIPs virou negócio sério com seu novo empreendimento noturno. E na B4 lá está a mesa de sinuca. Uma marca registrada, como sua alfaiataria.

A rotina diária de Ricardo Almeida começa a alguns quilômetros dali, com uma visita à fábrica no tradicional bairro do Bom Retiro. De lá, vai até seu ateliê, onde atende pessoalmente os clientes. Não é raro ir buscar seus filhos mais novos de 5 e 6 anos na escola. Depois do expediente, passa no novo empreendimento.

Sua prole é composta de quatro homens e uma mulher, de 29, 27, 22, 6 e 5 anos de idade. "Os dois meninos mais novos (de 5 e 6) são mais ligados em estilo", diz ele. E já usam as criações do pai, feitas especialmente para eles.

Ricardo Almeida faz questão de ser fotografado de costume. Também gostaria de atender todos os clientes assim, porém, o dia a dia é corrido. No momento da entrevista, vestia uma jaqueta de couro surrada, calça jeans e camisa branca. O casaco não é apenas para compor um estilo. Ricardo tem paixão por motociclismo. Tem cinco ou seis motos. Atualmente, tem preferido duas delas: uma Daytona e uma Buell. Duas rodas com pedigree.

A metáfora dos motores serve para definir sua clientela: "Tem gente que compra Mercedes, tem gente que compra um carro popular. Quanto melhor a qualidade, mais caro o produto". Ricardo só usa tecidos importados. Os italianos são os favoritos. Para portar um costume com sua etiqueta, é necessário desembolsar no mínimo dois mil reais. Um terno sob medida sai por volta de quatro mil reais.

O mais notório cliente sob medida é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "É fácil de resolver. Ele diz suas necessidades e eu vou atrás", responde sem dar mais detalhes do gosto do presidente. A lista inclui homens de diferentes estilos, do roqueiro Supla a seu pai, o senador Eduardo Suplicy. Muitos dos seus clientes célebres já participaram de seus desfiles, entre eles estão os atores Ney Latorraca, Marcelo Antony, o empresário João Paulo Diniz, o fotógrafo J.R. Duran, o apresentador Luciano Huck e o cantor Milton Nascimento. Seu padrinho e grande incentivador na moda foi o editor de moda da revista Playboy durante 10 anos, Fernando de Barros. Ele estreou a participação de personalidades nos desfiles de Ricardo Almeida. "Foi ovacionado ao entrar na passarela de terno claro, gola da camisa para fora e sandálias nos pés", consta no site oficial do estilista.

A conquista da clientela renomada começou com sua primeira loja no Shopping Morumbi, em São Paulo. A marca nasceu com proposta diferenciada para um homem que gosta de se destacar por seu estilo. Seus primeiros clientes foram os publicitários, naturalmente mais antenados. "Os clientes famosos foram chegando. Eu não tinha estrutura para fazer divulgação", recorda.

O contato com o público talvez seja a grande explicação para seu sucesso. Diferentemente da maioria dos estilistas, ele partiu das vendas e não da criação. Seus pais tinham uma loja de cama, mesa e banho na Rua Augusta, a Casa Almeida Irmãos, que até hoje existe, mas não pertence mais a sua família. O pai ensinou as noções de administração e do funcionamento da empresa: fluxo de caixa, relação com fornecedores e com os clientes. "Desde os 14 anos de idade, eu trabalhava lá", lembra. A vida atrás do balcão era o que o futuro lhe reservava até então. Contudo, o jovem Ricardo apaixonado por motos queria mesmo era fazer da sua paixão seu trabalho e correr profissionalmente. Desejos conflitantes. Deixou a empresa da família para buscar patrocínio para seu sonho. E assim começa a história de Ricardo Almeida na moda.

Como o mecenas não chegou, ele arrumou emprego como representante comercial de marcas variadas. Em seguida, mudou para uma fábrica de calças. Depois foi para uma camisaria. Atento ao mercado que acompanhava diariamente no tête-à-tête, pediu que acumulasse mais uma função e passou a comprar os tecidos das camisas. "Se eu comprasse tecidos melhores e diferenciados, eu ia vender mais e ganhar mais", relembra, sem soberba.

Na camisaria, aproveitou a abertura dos patrões e passou também a sugerir modelos. Contou com a experiência do baiano Raimundo que lhe ensinou a fazer moldes. Aprendeu por conta própria. De aprendiz, passou a patrão. Ricardo saiu da camisaria e ficou sócio da marca de calças que trabalhara. Acumulou experiência e viu que era hora de abrir sua própria marca. O ano era 1983. Começou produzindo para outras marcas conceitua-das como Bruno Minelli e Brooksfield, entre outras. Aprendeu a fazer moda na prática. "Na época, não tinha faculdade de moda. Eu trabalhava com livros de modelagem importados. A empresa sempre esteve de olho na vanguarda. Fazíamos roupas mais sequinhas, em cores como turquesa e coral.

A decisão de abrir uma loja própria, voltada ao público masculino, aconteceu em meio ao turbilhão econômico dos anos 1980. A inflação galopante gerava prejuízos. "Se os lojistas atrasavam dez dias para pagar, não queriam pagar a correção. Eu acabava perdendo meu lucro", relembra. As dificuldades dos anos 1980 endureceram ainda mais com o Plano Collor, no começo dos anos 1990, e com a abertura do mercado para as importações de tecidos. O produto nacional saía mais caro. Chegara a hora de abrir sua loja: a primeira, em 1992, no Shopping Morumbi, e em seguida outra, em 1993, no Shopping Iguatemi, ambas em São Paulo.

A transição do atacado para o varejo quase aniquilou a jovem marca. Os 110 funcionários precisariam ser reduzidos a 30 para atender a nova demanda de apenas dois pontos de venda. "Você vivia com 10 e tem de passar a viver com 3. É complicado", reflete. O sufoco foi grande, mas a marca prosperou.

Em 1996, participou da primeira edição do Morumbi Fashion, antigo nome do São Paulo Fashion Week, o principal evento de moda do País. "No começo, a marca saía um pouco da proposta. Era a única representante da moda masculina, o Patinho Feio da semana de moda", brinca. As celebridades que começaram a pipocar nas passarelas e na plateia de Ricardo Almeida levantaram o moral da grife. Com o crescimento do evento, o estilista achou melhor deixá-lo de lado em 2006, com um desfile que aconteceu no bosque do Parque do Ibirapuera, embalado por um coral. Hoje, promove seus próprios desfiles para imprensa e convidados selecionados. Autossuficiência conquistada com muito trabalho.

A falta de barreira entre cliente e empresário fez com que Ricardo apurasse o que ele chamou de "intuição" na hora de criar roupas e acompanhasse cotidianamente a evolução do comportamento do homem. Desde o começo, previa que, aos poucos, o homem passaria a se permitir ter mais estilo e se cuidar mais. Ainda que no Brasil a mudança seja tímida. "A silhueta masculina um pouco mais justa, proposta há dez anos, seria fora de proporção. Hoje, os homens estão mais abertos a mudanças", observa. Contudo, analisando a si mesmo como um lançador de tendências, hoje, ele se diz mais conservador. "Antes, me permitia mais ousadias, mas após tomar prejuízos fiquei mais pé no chão", conclui.

Com o tempo viu que é possível ofertar uma proposta moderna, sem sair do clássico. "A gente se preocupa em ter um estilo mais marcado. Nos paletós, mudamos a quantidade de botões. Pode ser um, dois ou três. No costume, as proporções mudam, mais largo, mais seco, porém, a ideia-base é sempre a mesma. Nessa coleção, fizemos as camisas com os colarinhos retos. É moderno, mas não é tão louca assim, dá para qualquer um usar", afirma.

Na era Lula, sua marca ganhou mais adeptos. "Depois que passamos a atender o presidente, as pessoas notaram que eu faço roupa mais 'careta'. Não precisa ser modelo para usar a minhas peças. E, hoje, eu prefiro deixar o charme no forro do paletó", revela.

Ricardo tem uma coleção de óculos de farmácia na mesa de centro da sala do seu escritório. Ele tem dois graus de "vista cansada". Escolhe pela cor da armação. "Estava atrás de um exemplar laranja. Vou perdendo e comprando outros. Agora parece que foi proibido vender esses tipos de óculos." Ele usa o acessório para analisar o acabamento das peças que cria, quando o cliente vai ao estúdio provar. Ele mesmo atende. Não pode parar de aprender.

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Este texto foi feito a convite da Revista Brasileiros e originalmente publicado na edição nº37

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