11 de março de 2009

reviravolta dos alfaiates

A visita ao guarda-roupa masculino está em voga com “a calça do namorado” popularizada pela atriz Katie Holmes e agora tem o “blazer do namorado“, inspirado nos anos 80. Para o namorado ter essa roupa o bisavó dele tinha um armário repleto de paletós, calças e camisas, feitos por algum alfaiate de confiança.

E hoje? Será que se o namorado consegue encontrar um alfaiate para fazer roupas bem cortadas iguais as do avô? Consegue sim, mas certamente não vai pagar barato por isso.



Essa é uma das conclusões do livro “Alfaiatarias em Curitiba”. Trata-se de uma produção coletiva e independente de Dayana de Cordova, Fabiano Stoiev, João Castelo Branco Machado e Valéria Oliveira Santos. O quarteto percorre a história desse ofício que começou a avançar na capital paranaense no inicio do século XX, quando prosperava a economia ervateira*.



O livro não identifica uma técnica típica curitibana. O resultado do trabalho de um alfaiate é quase universal. Tecido, corte e tamanho se adaptam a cada região. A idéia do trabalho foi decifrar a técnica dos alfaiates e as modificações que a profissão sofreu ao longo dos anos. Ou seja observar o “movimento do ofício e o oficio em movimento”.

Fazer a pesquisa não foi fácil porque não há registro histórico, a divulgação é boca-a-boca e muitos exercem o oficio ilegalmente em suas próprias casas, o que anula a possibilidade de publicidade.

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Tudo começa numa época que não existia a possibilidade de comprar roupa pronta. Rouba sob medida não era luxo, era necessidade, por isso significava status. Os alfaiates se instalavam em determinado bairro e por ali ficavam. Mudar significava perder a clientela. As alfaiatarias curitibanas seguiam a divisão tal qual uma Corporação de Ofício da Europa.







Ah! Tem uma curiosidade. Os alfaiates são sempre representados por figuras magrinhas. Os homens que não tinham força física acabavam costurando terno.

Havia um mestre alfaiate que coordenava o serviço dos chamados oficiais. Cada um tinha uma especialidade: paletozeiro, calceiro e coleteiro. Os três profissionais eram responsáveis pela composição de um terno**.

Hoje é rara a alfaiataria que tem essa divisão porque a profissão alfaiate está se tornando cada dia mais escassa. Hoje as técnicas de alfaiataria acabam mescladas com as várias possibilidades de construção de uma roupa. Porém, cada cliente é único e a diversidade de proporções as vezes exige soluções criativas do alfaiate***.



A passagem do tempo fez os alfaiates terem que se adaptar a tecnologia e aos novos costumes. Antes um terno era feito a mão. Depois chegaram as máquinas de ferro, o modelo ganhou um pedal, até as atuais, feitas de plástico. A costura a mão é a melhor porque deixa os pontos mais firmes.



Até os anos 60 usar terno era obrigatório, mas aí surgiu ela! A calça jeans. Suas múltiplas combinações e seu conforto caíram nas graças do povo e a moda do dia-a-dia foi perdendo a formalidade, e as alfaiatarias os seus clientes jovens.

A atividade só fez perder a popularidade desde então. E nos anos 90 sofreu um golpe definitivo. O famigerado plano Collor que abriu o país para importações e fez chegar ao Brasil a desleal concorrência com os ternos chineses, muito mais baratos e com pouca qualidade.



A adaptação das alfaiatarias a nova realidade econômica ficou inevitável. As que não fecharam as portas se tornaram empresas que fazem pequenos consertos e outras se mantiveram como alfaiatarias tradicionais e cobrando o valor da exclusividade.

Contudo, as linhas originais da alfaiataria serão sempre inspiradoras para os estilistas que estão sempre construindo, desconstruindo e descontraindo a tradição.

Gostou?
“Alfaitarias em Curitiba” Dayana de Cordova, Fabiano Stoiev, João Castelo Branco Machado e Valéria Oliveira Santos.
Publicação independente - alfaiatesealfaiatarias@gmail.com


*Uma das empresas propulsoras de tal atividade foi a Leão Júnior, fabricante do “Matte Leão”.
**Chamamos terno a dupla paletó e calça, que na verdade é o costume. Terno original = paletó, calça e colete.
***Quem compra em brechó sabe as proporções de alguns casacos não parecem seguir um padrão proporcional.

Moda pra ler indica em Curitiba: G-Arquitetura
Créditos das imagens:
João Castelo Branco Machado tiradas do site Patch & Arte
Capa - reprodução/ O Bonde

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Nuevos Aires...
Durante esses três anos de moda pra ler algumas pessoas queridas me aconselharam a fazer um blog temático. No começo não via sentido em ter um fio condutor porque não queria abrir mão de falar do que quisesse. Contudo, vi que chega uma hora que é mais fácil delimitar o pensamento. Decidi que agora é a hora de segmentar esse espaço aqui.

O caminho era óbvio: conjugar a terceira palavra do título do blog. Agora o moda pra ler fala sobre livros e leituras de moda, e sobre as idéias que eles inspiram. Será uma experiência, espero que gostem.

2 comentários:

  1. Temos certeza que esse blog fará muito sucesso! Indicaremos para nossas amigas!

    Adoramos a ideia do blog: Moda para ler !

    Bjx

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  2. Muito gostoso ler esse blog!! Vou passar por aqui mais vezes!
    Lendo esse post lembrei do meu avô, que era camiseiro.
    Um abraço.

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