19 de novembro de 2007

mpl entrevista: Bel Paoliello



“Acho que existe vida fora dos shoppings”, assim explica a arquiteta - estilista Bel Paoliello diretora de estilo da marca que leva o seu nome.

Nunca ouviu falar dela? Se o leitor não é freqüentador da Vila Madalena em São Paulo, provavelmente não a conhece. Bel está no mercado há anos, pouco investe em divulgação, e possui clientes fiéis que fizeram sua fama no boca-a-boca. A marca aberta em 1987 passou todos esses anos no bairro paulistano, muito antes do lugar ser povoado por bares e lojas de roupa e design.

Dirigindo uma equipe de 13 funcionários, a estilista acabou de abrir uma filial em Belo Horizonte, onde também optou pela rua, no charmoso bairro Savassi. Sua primeira loja foi em uma praça na Vila Madalena e há 10 anos mudou-se para a rua Aspicuelta, “fui praticamente pioneira no bairro”, orgulha-se.

Apaixonada por tecidos e estampas, mesmo depois de 20 anos de marca tem o maior prazer em comprar tecidos e escolher estampas, “eu já me realizaria se só comprasse tecidos“. Outros pontos que gosta de ressaltar sobre sua roupa é a modelagem confortável, a sofisticação nos detalhes e a “sensualidade dosada“. Seu maior prazer é ouvir as clientes contando que foram elogiadas quando usaram uma peça da marca.

Na coleção verão 2008, Bel reviveu seus tempos de faculdade e realizou as fotos do catálogo na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, onde concluiu sua graduação. As modelos escolhidas são estudantes de arquitetura.

Nessa entrevista Bel fala sobre a sua relação com a arquitetura, revela os passos de sua empresa e fala sobre sua criação.

Catálogo verão 2008 fotografado na FAU-USP

Você é formada em arquitetura. Chegou a trabalhar na área?
Sim, foi ótimo, mas logo recebi um convite para trabalhar em uma confecção pequena onde teria muita liberdade para fazer moda e resolvi aceitar.

Já fazia roupas antes de entrar na faculdade?
Sim, fiz minha primeira peça aos 12 anos, mas não imaginava que viria a ser uma profissional da área de moda.

Depois que começou a fazer moda, a arquitetura foi deixada totalmente de lado?
Sim como trabalho, mas acompanho o trabalho dos arquitetos. Acho a produção arquitetônica a coisa mais requintada que há no mundo hoje e sempre. Ela me sensibiliza profundamente.

A formação em arquitetura tem alguma influência na sua criação?
Sim. Gosto muito de “projetar” as roupas, com modelagens elaboradas onde o desenho e a espacialidade dos volumes tem a sofisticação da arquitetura. Penso no desenho de forma construtiva onde os recortes são criados para conseguir a volumetria esperada e não só como uma coisa decorativa. Acho que a arquitetura me deu uma visão racional do desenho de moda. O conforto também é um item da maior importância que tem um paralelo com arquitetura.



Como foi o começo da marca?
Depois de trabalhar por quatro anos em uma confecção senti que era hora de partir para um negócio próprio. O começo foi vendendo em casa para amigos, participando de bazares nos finais de ano e consignando em lojas de conhecidos.

Você pode traçar um perfil da consumidora da Bel Paoliello?
Mulheres que sabem o que querem e que gostam de estar bem arrumadas, com idades variadas, mas principalmente de 25 a 55 anos, muitas que ganham seu próprio dinheiro como professoras, psicólogas e artistas. Meus clientes tem conteúdo, pensam e tem atitude diante das coisas.



A Bel Paollielo trabalha muito com estampas. Você desenvolve estampas exclusivas?
Já desenvolvi estampas exclusivas em silk-screen, localizadas, mas é um projeto termos nossas estampas exclusivas, principalmente porque na Vila, vira e mexe aparece loja usando a mesma estampa e é difícil controlar isso.

Como as coleções são desenvolvidas?
Primeiro fazemos um planejamento do número e tipos de peças a serem produzidas. A partir de algumas idéias originais, procuramos definir a paleta de cores e damos início ao desenho dos modelos, tentando manter o ritmo de lançamentos mensais que planejamos. Consultamos materiais variados como internet e revistas mas não nos fixamos nisso.

De onde vem a inspiração para criar?
Dos lugares mais inesperados como a cor de uma janela de uma cidade antiga, das flores ou coisas da natureza, principalmente quando estou relaxada, de férias. Não viajamos para ver moda, nós não fazemos moda copiada. Procuramos estar atualizadas com as tendências, mas de forma pessoal e sempre revendo nossas produções passadas.

Por que optou pelo bairro?
Sempre circulei pelo bairro, pois alguns amigos da arquitetura tinham atelier lá. Achava alternativo e simpático e meus filhos estudavam na Escola Vera Cruz que fica na praça em frente à minha primeira loja.

A nova filial em BH. Por que optou pela cidade?
Tenho uma irmã que mora lá e mostrou interesse em abrir uma filial em sociedade comigo. Eu balancei, mas topei e fizemos de forma bem profissional. Escolhemos um bom ponto, fizemos um projeto bacana e reformamos a loja que ficou com a cara da Bel Paoliello daqui. As mineiras estão se mostrando ótimas clientes. Os homens mineiros também adoraram a loja e atendendo aos pedidos nós voltamos a confeccionar algumas peças masculinas que eu fazia no começo e que faziam sucesso como as camisas.



A marca tem mais de 20 anos e você nunca teve loja em shopping, e sempre se manteve na região da vila madalena. Como manter a marca, e até abrir franquias, em meio a tanta concorrência e fora do circuito Jardins - shoppings?
Acho que existe vida fora dos shoppings. Realmente a concorrência na Vila está cada vez mais acirrada, mas acaba sendo um incentivo. Temos que ter continuamente novidades e reforçar a marca com as características que cativaram as clientes. Nos dois últimos anos contratamos uma assessoria estratégica e de estilo para nos ajudar a crescer. Aliás, acho que o futuro está nas ruas, que é o espaço que pertence ao habitante das cidades, e deve ser reconquistado e revisto. Nas melhores cidades do mundo a rua é o espaço mais valorizado. Aqui em SP é que esta realidade é um pouco distorcida.



Desde que a Bel Paoliello começou a moda brasileira cresceu muito. Quais as principais dificuldades de manter a marca e fazê-la crescer?
Manter fresca a criação e não nos afastarmos das nossas características principais.

Quais os planos para a marca?
Pretendo ter mais duas lojas, mas ainda são planos distantes.

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Crédito das imagens: Bel Paoliello/ divulgação
Outras informações: http://www.belpaoliello.com.br/

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