22 de novembro de 2006

moda de anorexia na mídia



A Época, a Veja e a Isto é dedicaram suas capas a reportagens sobre anorexia puxada pela morte da jovem modelo Ana Carolina Reston.

Deixo os leitores com três textos muito interessantes. O primeiro um artigo muito esclarecedor de Alberto Dines no Observatório da Imprensa, o segundo uma entrevista que a editora de moda Iesa Rodrigues concedeu ao jornalista Mauro Malin também do Observatório, o terceiro uma crônica que o Luís Nassif colocou no seu blog.

Esses textos trouxeram algumas conclusões:
- A mídia está a serviço dessa industria de magreza que movimenta muitos milhões, inclusive em anuncios publicitários. A situação não tem chances de mudar enquanto estimular a magreza for rentável.
- No mundo real, sem glamour, cheio de contas para pagar o simpático jargão "quem gosta de osso é cachorro", faz todo sentido.

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ANOREXIA & AMNÉSIA
Ela conseguiu ser capa de revista: quando morreu

Por Alberto Dines em 21/11/2006
Toda a mídia tem falado da morte da modelo por anorexia. Tirando a lamentável perda de alguém tão jovem, vejo muita hipocrisia na cobertura. Até que ponto a imprensa não ajuda na produção dessas pessoas? Vou explicar: às vezes recebo junto com o meu jornal, um encarte de moda. No último, alguns meses atrás, as modelos eram tão magras que mais pareciam estar na sala de espera de uma clínica para atendimento de anorexia. Vocês valorizam esses "modelos de beleza", "vendem" estes produtos e depois se dizem chocados !Por que não boicotar este tipo de exploração da magreza humana? Amélia Artes, leitora, para o Ombusdman Marcelo Beraba, Folha de S.Paulo, 19/11, pág. A-6


A linda modelo Ana Carolina Reston está nas capas das revistas Veja, IstoÉ e Época. Antes, durante três dias, freqüentou as primeiras páginas dos jornais e as escaladas dos telejornais.

Estilistas e agências de modelos foram escolhidos pela mídia como culpados pela tragédia. E são mesmo culpados: impuseram um padrão de beleza perverso, antinatural e macabro, apenas para atender ao espírito novidadeiro e fútil da indústria da moda. Mas quem multiplicou este estúpido paradigma em sonho coletivo? Quem transforma essas adolescentes em zumbis fixadas apenas em alcançar os 15 minutos de fama, cachês fabulosos e filas de namorados?

Amélia Artes, a leitora da Folha, mora em São Paulo, não é militante política, não está a serviço de facções, não recebeu a tarefa de linchar um jornalista. Estava exercendo o seu dever de sofrer. Tocada pela tragédia, percebeu que estava faltando aquele elo do círculo vicioso que converte a obsessão pela fama num ideal de vida – a mídia.

A anorexia de Ana Carolina mostrou a amnésia da nossa mídia. Não foram os jornais e revistas que inventaram a balela do glamour do mundo fashion. Mas quem martela continuamente esta balela nas capas, reportagens, colunas sociais, empresariais, telejornais e telenovelas é a mídia. Na ânsia de faturar anúncios das coleções da próxima estação e abiscoitar algumas assinaturas no segmento feminino, jornais responsáveis ultimamente aderiram de forma pouco crítica e leviana à febre das fashion weeks, eventos puramente comerciais disfarçados em fatos jornalísticos.

Pagam-se altos cachês às celebridades para se deixarem fotografar nestes eventos, mas o que se oferece àquelas raparigas tontas e magricelas é a promessa de sucesso. Desde que não comam, não tenham prazeres e vivam como robôs fingindo uma felicidade que jamais experimentaram e dificilmente experimentarão.

Estilistas em geral estão se lixando pelas preocupações morais, também as agências de manequins, mas a imprensa noticiosa não tem o direito de esquecer o "contrato social" com seus leitores. Revistas especializadas em Moda & Beleza têm compromissos diferenciados, operam em faixa própria, meio caminho entre o jornalismo e a promoção comercial. Mas instituições jornalísticas comprometidas com a missão de proteger a sociedade por meio da informação correta não podem adotar ares de doidivanas.

O sonho de Ana Carolina Reston era ser cover-girl, garota da capa. Conseguiu: três na mesma semana! A mídia, desta vez, até que foi generosa. Mas esqueceu sua parte nesta forma charmosa de suicídio.

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Magreza e vendas

Editora de moda do Jornal do Brasil há muitos anos, Iesa Rodrigues explica que os estilistas encomendam às agências modelos magérrimas porque querem que as roupas pareçam folgadas.

Iesa:

- Primeiro, a moda vem vindo de um ciclo de roupa justa, uma roupa que estreita. Faz parte do ciclo normal da moda ir justamente para o lado oposto. Quando todo mundo está usando a roupa justa, coladinha, isso já chegou à rua, aí a moda que lança as novas idéias começa a partir para o lado oposto. Provavelmente, isso vai levar uns três anos para “pegar”. A moda vive disso, de sugerir coisas opostas. E outra coisa é o seguinte: imagina quão mais cara pode ser uma roupa que tem muito mais tecido.

E eles pegam aquele padrão das meninas do Leste Europeu, belgas, como base. E aí eles querem que todo o elenco tenha aquela mesma medida. Uma medida padrão, que nos anos 80 era um padrão 90 [centímetros de quadris], eu acho que já está em 86, 85. Para uma menina de um 1 metro e 80, é muito pouco.

Mauro:

- Imagem está relacionada com vendas, segundo a editora de Moda do JB.

Iesa:

- A finalidade disso é mostrar a roupa bem na passarela e nas fotos. Porque se a roupa já é larga e ela for vestida numa pessoa de tamanho 42, 40, não vai convencer ninguém de que aquilo é bonito. Existe essa visão. Existe essa visão. Para você convencer alguém de que aquilo é bonito, a coisa não pode parecer engordativa, nem envelhecedora, nem nada. Então, você tem que ter um corpo certo para aquele tipo de roupa. Por exemplo, quem faz moda praia não pode usar esse tipo de menina muito magra, porque não valoriza. Um biquíni numa menina superfininha não valoriza. Precisa ter um outro tipo de modelo.

Mauro:

- A magreza exagerada também é filha de circunstâncias técnicas relacionadas à imagem, diz Iesa.

Iesa:

- Na passarela ela parece uma menininha, assim, adolescente. Quando ela sai da passarela, você vai para o camarim, ela tem 1 metro e 80, ela é enorme, e é muito mais magra do que parece. Porque a passarela, visualmente, ela engorda a pessoa. Eu acho que são quatro quilos na foto, não sei, cinco quilos na passarela, sete quilos na TV. Visualmente, engorda a imagem da pessoa.

Mauro:

- A jornalista reconhece que a imprensa, a despeito das limitações que encontra, não é obrigada a se deixar arrastar por uma estética mórbida.

Iesa:

- A gente pode falar nisso: “Olhem para suas filhas, olhem, literalmente”. Eu não vou te dizer que eu vou botar meninas gordinhas nas minhas fotos, porque eu não vou ter roupa. O estilista, quando ele empresta as roupas, já empresta naquele tamanhinho. Eu não acho bonito. Normalmente, a gente evitar usar essas assim, bem... Biafra, mesmo. Porque não fica bonito na foto. Na passarela fica porque elas estão até em movimento. Mas a foto cristaliza aquela coisa estranha que é um esqueletinho.

Mauro:

- Iesa Rodrigues admite que a mídia tem, fora das páginas de opinião, caminhos pragmáticos para se contrapor à ditadura da moda.

Iesa:

- Nada supera a imagem. Se você começar a botar mulheres maravilhosas que não são esse padrão 00, as pessoas se convencem mais.

Por trás das nuvens

A morte de uma modelo anoréxica questiona, não se sabe por quanto tempo, a submissão da mídia a interesses comerciais. A morte de 154 pessoas do avião da Gol só muito lentamente, e com atraso constrangedor, levantou o véu que encobria o estado dos serviços de controle do tráfego aéreo no Brasil. O movimento dos controladores mostra duas fragilidades: a da aviação civil e a da cobertura jornalística.

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Meninas da Moda

Ah, meninas da moda, de rosto exangues, de pernas finas, com o ar triste de pássaros engaiolados, o que o mundo da moda fez com vocês? Tirou sua juventude, extirpou de sua expressão a alegria da adolescência, do seu olhar o frescor da juventude, a sexualidade jovem e sadia das outras meninas da sua geração, chupou o seu sangue de tal maneira que o corpo esquálido reflete apenas tristeza da celebração antecipada das purgações da vida adulta.

São estranhas criaturas, com o corpo cinzelado por sopros de anemia, esquálidas, indiferentes, não indiferentes, tristes mesmo, de uma tristeza extravagante, mais discreta que a dos jovens góticos que se estraçalham buscando diferenciações grotescas, mas igualmente tristes.

Aqueles expõem suas chagas, castigam-se por pecados que nem identificam; estas expõem seus ossos como se, nesse mundo do espetáculo permanente, qualquer outra forma de expressão humana já tivesse sido suficientemente banalizada.

Tristes meninas.



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Crédito da Imagem:
Fotos de Alexandre Schneider/UOL - tirada do blog do Luis Nassif

Um comentário:

  1. Há ainda a questão da exploração e sexualização de meninas de 13 ou 14 anos, que nem ao menos terminaram o primeiro grau e que são mais vulneráveis, por imaturidade, à ditadura do mundo da moda. É trabalho infantil e exploração sexual de crianças. Há empresas importantes que se negam a fazer negócios com países que exploram crianças. O que o mundo da moda diz a respeito? Dá uma esmolinha pra uma ONG qualquer e tudo bem?

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