20 de agosto de 2006

Santa Entrevista

A pessoa por trás do ótimo blog Santa Mistura chama-se Patrícia de Miranda. Ela é carioca, morou 20 anos em São Paulo, e em 2002 voltou para o Rio de Janeiro. Mora no Recreio, bairro um pouco afastado da cidade, abençoado com uma bela praia.

O propósito central do seu blog é compartilhar os links de moda mais incríveis com os internautas. A idéia começou em função de uma experiência profissional. De moda Patrícia entende, toda sua vida trabalhou na área.

Nessa entrevista feita em dois e-mails (Patrícia contou sua história numa primeiro mensagem e formulei perguntas em cima do que ela tinha escrito) ela conta um pouco sua história e mostra uma visão muito interessante sobre moda.

Como começou a trabalhar com moda?
Comecei a trabalhar com moda em 81 como vendedora da loja NEW GIPSY, depois como gerente de uma rede de atacado, e estilista da Gisele Amaral. Em seguida fui convidada para ser diretora de figurino da então Rede Manchete. Em paralelo montei uma revista de moda e rock chamada “Reflexo”, que mudou toda a linguagem das revistas de moda da época.

E depois? Conta um pouco da sua trajetória nessa área?
Conheço como funciona toda a cadeia têxtil, especialmente a área de desenvolvimento de tecidos, produtos (confeccionados) e acabamento. O trabalho em São Paulo sempre esteve muito ligado e acertar o foco do produto, reorganizar equipe e todos os processos: da criação até o varejo. Também tenho experiência com repaginação de lojas, treinamentos comerciais que visavam integrar o produto (criação) a equipe comercial (transferência de know-how).

E hoje, você ainda trabalha com moda?
Voltei para os desenhos. Hoje estou fazendo ilustração para papelaria e vendo mais para o exterior do que para o Brasil.



Como "voltei para os desenhos"?
Comecei a fazer estampas e em 2004 surgiu a Santa Mistura Desenhos e Produções ltda. A empresa funcionava de forma semelhante aos consórcios da Itália. Reuni o trabalho de 25designers.

Como são os consórcios da Itália?
A responsabilidade de quase 80% do PIB na Itália vem dos consórcios. É um modelo em que se cria uma “marca forte” onde vários micros e pequenos empresários pertencem a esta empresa. O objetivo dessa “marca forte” é pleitear empréstimos, adquirir equipamentos, divulgação, logística, entre outras coisas. A diferença para uma cooperativa, é que cada empresa do consorcio ganha proporcionalmente sobre sua produção, seus custos internos de produção, seu balanço não é misturado com o balanço de outras empresas que pertencem ao consórcio.

Como funcionava na Santa Mistura?
Os designers produziam cada um a seu modo. A Santa assumia o comercial obtendo uma autorização junto a cada criador para representá-lo e comercializar suas estampas. A empresa investia em feira aqui e no exterior, produzia folders, catálogos e tinha um site.

E você continua com a estamparia?
Fui convidada pela Estácio de Sá para fazer um trabalho de pesquisa de novos produtos e reposicionar a área de moda. Muitos projetos nem saíram do papel. Alguma coisa deu resultado com as participações no Fashion Rio. Porém, fiquei tão encantada com a descoberta deste mundo acadêmico que deixei a Santa ir esfriando até sumir. Tirei o site do ar, mas ainda me perguntam se sou uma estamparia.

É difícil ter uma estamparia?
Ainda não é a hora. Ninguém procura a criação de estampa brasileiras no Brasil. Dá mais status para as fábricas dizerem que a estampa é italiana

E como surgiu a idéia de fazer o blog?
Fiquei 2 anos na Estácio de Sá pesquisando e escrevendo projetos. O ultimo foi o blog que surgiu nas minhas férias de dezembro depois de organizar os links, que estavam muito bons. Achei que era um absurdo, conhecendo a realidade do estudante, ele pagar por informação de moda e design se praticamente tudo está na web. O projeto era um pouco maior do blog.

Apesar do trabalho da Estácio não ter rolado, você continuou atrás dos links né?
É uma recompensa. Vejo o blog crescendo. Uma comunidade virtual se fortalecendo e sei que este processo vai acelerando nossa abertura à informação rompendo um pouco com a mídia viciada nos mesmos de sempre e assim todos ganham. Ficamos mais ricos culturalmente. Ficamos mais criativos

Você falou que trabalha mais para o exterior do que para o Brasil, é comum designers e ilustradores fazerem isso?
Acho que sim, quase todos os dias descubro mais um.

O Brasil ainda é muito imaturo nas artes gráficas?
Não, os brasileiros são moderníssimos e excelentes em tudo. O mercado interno é que é ruim.

O que acha do desenho de moda hoje?
As faculdades que conheço não têm como objetivo "fazer" os estilistas desenharem. Eles saem com uma bonequinha na mão, que muitas vezes é do professor. O estilista que desenha , nasceu desenhando e existe trabalhos muito bons dessas pessoas. Nas faculades de designer gráfico ou design não dão muita importância para área de moda, então na maioria nossos ilustradores de moda sabiam desenhar quando criança ou adolescente. E desenhar é facílimo eu mesmo dei aulas no Senac de Sorocaba (desenho com o hemisfério direito), o aluno sai 1 retratista.

Atualmente em ilustração de moda, por exemplo, só se fala em Felipe Jardim. Para você que é do ramo, tem espaço na mídia pra todo mundo?
Teria espaço pra todo mundo se fossemos, de fato, democráticos. No fim acho que os jornalistas não têm tempo de pesquisar. Talvez seja isso que faz eles se repetirem, e talvez esteja ai a resposta ao crescimento dos blogs.

***
Crédito da Imagem: Patrícia de Miranda
Vide Portifólio Patrícia de Miranda

3 comentários:

  1. Laura, adoro as entrevistas que vc faz com os blogueiros, parabéns!

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  2. Laura , parabens pela reportagem com a Patrícia. Ficou ótima. Ela realmente é uma fofa e extremamente dedicada ao que faz.

    Adorei.

    Bjs,

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  3. laura querida, obrigada pelo post, veio um monte de gente do seu blog lá pra santa ; )) super obrigadaaaaa

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