24 de julho de 2006

Esclarecida

O texto introspectivo, ora ácido, aparece mais leve e didático, porém, com a dose necessária de inquietação para que as mulheres não se reduzissem ao papel de coadjuvante.

Estou falando das colunas de comportamento que a escritora Clarice Lispector escrevia sob os pseudônimos de Tereza Quadros, para o jornal Comício em 1952; Helen Palmer, para o Correio da Manhã em 1959 e Ilka Soares, para o Diário da Noite em 1960; e que agora foram reunidas no “Correio Feminino”. O livro foi lançado esse mês pela editora Rocco, organizado pela professora Aparecida Maria Nunes.

Creio que Clarice Lispector se divertia muito ao escrever as dicas de etiqueta. Frisava a necessidade de discrição da mulher e a necessidade de apresentar um comportamento conforme a idade. Propunha reflexões revolucionárias na relação marido e mulher:

Compreenda seu marido ... não é tão difícil quanto parece

(...)o homem sempre acha que sua opinião é a melhor e que deve prevalecer

Enfim, pedia uma nova postura feminina:

Não adiantaria nada que as mulheres passassem a ler mais, se não procurassem ler melhor.(A Leitura)

A futilidade é fraqueza superada pela mulher esclarecida. E você é uma “mulher esclarecida”, não é mesmo?(Uma mulher esclarecida)

As sugestões de beleza durante a fase que escreveu no Correio da Manhã eram direcionadas pelo contrato que assinou com a marca de cosméticos Pond’s, para sugerir, de maneira subliminar, o hábito de consumir.

Ela escrevia sobre moda, mas não de maneira factual. Não há dicas de tendências de moda, por exemplo. Na época estilista era chamado de “costureiro” e a duquesa de Windsor era o modelo de elegância, por isso a nobre inglesa foi citada em vários artigos. Seus textos focam mais o modo certo de se vestir:

Ano a ano, variam as modas. (...)
E as mulheres obedecem a moda. (...)
Todas as mulheres? Não. A mulher inteligente não é escrava dos caprichos dos costureiros, dos cabeleireiros e dos fabricantes de cosméticos. Antes de adotar a última palavra da moda, ela estuda o efeito da mesma sobre seu tipo. A mulher inteligente sabe que mais importante que parecer “chique” é parecer bonita. (...)
Espero que minhas leitoras pertençam a esse tipo de mulher.(...)
Raciocinem, estudem a si próprias, em detalhes, lembrem-se de o que fica bem a uma Elizabeth Taylor, miúda e frágil, ficaria ridículo em Sophia Loren. No entanto, ambas são lindíssimas.
(A Moda... e a mulher inteligente)

(...) A maioria das mulheres quando usa “shorts” ou “Slacks” consegue aumentar seus encantos, mas nunca melhorá-los.(As Roupas)

(...) Mas atenção! (preto) é uma cor que não suporta mediocridade. Cuidado se sua pele estiver sem viço ou se você já ultrapassou os 40 anos.O preto exige uma maquilage impecável, um aspecto “soigné”, cabelos bem penteados. (A cor do Glamour)

O figurinista da tela não cria apenas uma indumentária. Ë um criador de um personagem(...). Mas o mesmo modeo, copiado para a vida diária, poderá perder a magia e tornar-se um trapo.(Vestido de Cinema)

Ucraniana, sagitariana, judia, veio para o Brasil ainda bebê e passou a infância no Recife e aos 15 anos veio para o Rio de Janeiro, onde começou a estudar Direito. Casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente. Teve dois filhos e se separou em 1959. Apesar de escrever desde pequena, sua carreira como escritora começa no período da faculdade com 20 anos onde começa a trabalhar como jornalista no Diário da Noite. Seu primeiro livro publicado foi “Perto do Coração Selvagem” em 1944, aos 24 anos.

Era uma mulher muito bonita. Independente, fez das letras seu ganha pão e contou com o apoio de amigos como Fernando Sabino, Rubem Braga e Alberto Dines. Em 1967 dormiu com um cigarro aceso e o descuido causou um incêndio. Por pouco não teve a mão direita amputada. Após o incidente continuou sua produção literária intensamente. Morreu em 1977, aos 57 anos, vítima de câncer. Entre suas obras as mais celebradas são “A Paixão segundo G.H” e “A Hora da Estrela”, ambos já ganharam versões para teatro e cinema.

Fica aqui a dica de leitura e as dicas de Clarice. Feitas as adaptações temporais, continuam atualíssimas.

***
OBS: Livro para ler numa sentada, como diria minha avó
Crédito da foto: El Nuevo Diario

4 comentários:

  1. Laura, adorei, que tuuudo! Já tá lá no blog!!!! Adorei!!!

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  2. Michal diretamente de Parisdomingo, 30 julho, 2006

    Laura, como a adorada Clarice, voce tambem eh elegante, inteligente e talentosa. Seu blog me surpreende cada dia mais e mais. Um beijo enorme.

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  3. OI Mi! Vindo de vc uma futura doutora em literatura só tenho que me orgulhar.
    Como está Paris?
    beijo

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  4. Really amazing! Useful information. All the best.
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