29 de junho de 2020

a-linha-narrativa nº4: o fazer artístico como cura

 

Ia escrever um texto, mas nada melhor do que ver a própria artista falando.

Então, essa edição da newsletter é um #repost da conversa com a Crioulla Oliveira.

clica aqui para assistir (:
https://youtu.be/r1xnimA-034​

Sobre a artista: Crioulla Oliveira (Londrina, 1979) é Ekedi, fotógrafa, cineasta e documentarista. Seus trabalhos têm como ponto de partida as tradições do Candomblé.​ Dirigiu o documentário "Dona Vilma" que conta a história de sua mãe - ativista, mãe de santo e dona de casa. Ministrou a "Oficina de Indumentária e Performatividade dos Orixás", na 1ª Mostra do Avesso do Centro Cultural São Paulo (2019). Vive e trabalha na capital paulista onde vêm desenvolvendo uma ampla pesquisa sobre as erveiras.

A conversa foi a 3ª edição on-line do evento "De Peito Aberto" do GE [grupo maior que eu]. O GE é "um ambiente de experimentação propício a novos modos de encontro e de produção. Criado/conduzido pela artista Karlla Girotto desde 2013". O "De Peito Aberto" acontece mensalmente e convida um artista externo ao grupo para compartilhar seu processo criativo. A conversa com a Crioulla Oliveira foi realizada no dia 27 de junho. Cada minuto do papo vale a pena.

18 de junho de 2020

a-linha-narrativa nº3: O que as mangas bufantes contam sobre nós?

Pesquiso  "mangas bufantes" e o algoritmo me conta que elas estão no topo da curva da tendência. Renner, C&A, Farm, Antix, entre muitas, mandam sugestões no instagram. As mangas bufantes do início do Século XXI estão lânguidas, leves e delicadas.

A primeira temporada da simpática série "Anne with an E" da Netflix é ambientada no final do Século XIX. O pai da protagonista a presenteia com um vestido azul de mangas bem bufantes. Anne fica alucinada com a roupa que é o último grito da moda. Com a história bem decantada, é possível afirmar que a manga bufante super estruturada, ao lado do espartilho e da gola alta formavam o combo iconográfico de uma época de moral conservadora. A mulher deveria imprimir bibelô, tipo um enfeite do marido.

No Século XX, os anos 1980 foram um grande momento das mangas bufantes. Tinha uma pauta "ombros e braços" rolando.  A foto da capa do disco "Warm Leatherette" (1980) da Grace Jones deu a letra pictórica da década.  As mangas bufantes simbolizavam tanto a força das mulheres que se jogavam no mercado de trabalho, como os excessos de um período hedonista protagonizado pelos agentes do capitalismo financeiro e do neoliberalismo.

Lá por 2016, as bufantes reapareceram nas passarelas internacionais em uma coleção resort da Chanel. Aqui no Brasil algumas marcas autorais assinalaram que elas voltariam. Destaco a Aluf, da Ana Luisa Fernandes, que tem essa modelagem no DNA, e a Iara Wisnik. Perguntei para a Iara: Por que decidiu apostar nas mangas bufantes?

Minha marca é mais conhecida pelas linhas retas. Fui ficando com vontade de arriscar essa modelagem. Primeiro fiz uma de amarrações. Uma mistura de uma modelagem meio japonesa com outra mais romântica. Depois fiz uma versão de manga longa com uma prega no meio. Essa é bem mais 'medievalzona'.
As mangas bufantes fazem parte do meu imaginário afetivo. Elas sempre acabam voltando na minha cabeça. Começou quando era criança e assisti "Ham-let" do Zé Celso.  Meu tio, Caio da Rocha,  era o figurinista da peça. Pirei nas roupas da Ofélia e da Gertrudes. Tinham mangas bufantes e evasês enormes.  Quando fui estudar teatro, fiquei ainda mais ligada às obras do Shakespeare e nos figurinos das montagens de suas peças, sempre com uma manga bufante.
vestido Julieta, da linha festa, é uma referência bem clara a essas memórias afetivas.

Tudo que entra "na moda" é reflexo das sensações do tempo em que vivemos. Como disse a socióloga Denise Ferreira da Silva, estamos vivendo "o fim do mundo como conhecemos". Tentando ser (um pouco) otimista, @s protagonistxs da história começam a mudar.  Logo mais a gente vai olhar para as mangas bufantes da década de 2020 e dizer que dessa vez elas não contavam sobre o mundo dos homens.

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PS 01: Menção honrosa às mangas bufantes dos trajes de Festas Junina. Nesse texto tem uma breve história da comemoração das festas de São João e suas roupas típicas.

25 de maio de 2020

a-linha-narrativa nº2: o que é o futuro?

 

A Baronesa Elsa usava um sutiã de lata de tomate, os cabelos raspados nas laterais e colares de luzes piscando. Seu guarda-roupa e suas performances deram o que falar na cena underground de Manhattan nos anos 1910. Ela flutuou sobre o presente, porque ele foi incapaz de dar conta de tudo o que ela era. Uma pessoa do futuro habitando o passado.

Um desenho de Elsa voando estampa a capa de "Memórias do Futuro" (2019), o livro mais recente da escritora estadunidense Siri Hustvedt (ainda sem versão em português). A narrativa não é sobre Elsa e sim sobre S.H. (um tantinho autobiográfico), uma mulher que relembra sua chegada a Nova York no final dos anos 1970, e sua ansiedade pelo porvir nessa época. A memória de uma expectativa de futuro é um dos motores do livro. Para Siri (que também publica em periódicos de neurociência) as memórias não se mantém íntegras, vão aos poucos se intoxicando de imaginação.

"Nostalgia Futura" é o nome do novo álbum da britânica Dua Lipa. A cantora de 24 anos pontua sem medo quais foram suas referências nas décadas de 1970, 80 e 90 para criar um disco-delícia, companhia perfeita para animar a faxina na quarentena. A mimese bem construída do passado atrelada à narrativa feminista atual se encaixa perfeitamente com os anseios do presente, por isso o sucesso instantâneo.

O #tbt se tornou commodity. Exemplos rápidos - Sandy & Júnior e Spice Girls se reuniram para fazer shows com ingressos salgados. O mercado de discos de vinil expandiu. Eletrodomésticos, rótulos de cosméticos e barbearias com o layout dos anos 1950 se tornaram carimbo do estilo de vida hipster. A textura sujinha das fitas VHS aparecem em filtros do instagram. Peças de roupas com os logos do Planet Hollywood e do Hard Rock Café se tornaram peças-fetiche. Reproduções do Windows 95 e do MSN Messenger aparecem em vídeos do youtube. Remakes dos filmes clássicos da Disney em live-action se tornaram uma franquia lucrativa. Uma campanha publicitária de carro relembra o desenho "Caverna do Dragão". "The Queer Eye" e "Gilmore Girls" atualizaram formato e capítulos respectivamente. Revistas de moda tuitam sobre o estilo de "Sex and the City". E um especial de "Friends" é ansiosamente esperado.

Esses entre tantos exemplos são uma viagem curta, sobre asfalto novo e céu de brigadeiro para a memória afetiva dos Millennials e da Geração X, as faixas etárias que representam a maior parte da força de trabalho no mundo hoje e portanto os donos do dinheiro. A tecnologia é do século XXI, mas o conteúdo cultural mainstream parece estar ilhado no século XX, como sugeriu o escritor e crítico musical britânico Mark Fisher (1968-2017). E essa ilha fica mais remota graças ao efeito "sala de espelhos" arquitetado pelos algoritmos das redes sociais.

Um estudo global encomendado pela plataforma de streaming Deezer publicado em 2018 revelou que "os brasileiros param de descobrir músicas novas ao 23 anos" (os setlists de festas de casamento e de aniversário de pessoas 30+ ilustram perfeitamente esta estatística). O principal motivo para o cessar da curiosidade musical é a ausência de tempo livre. Na Alemanha, como as condições de vida e de trabalho são melhores que aqui essa idade avança até os 31. Li essa notícia em novembro de 2018, mesmo mês da eleição do Bolsonaro, que foi eleito atrelado a pautas morais retrógradas e claramente inspirado por D. Trump, cujo slogan de campanha foi "Fazer a América grande de novo". Em comum os dois também tinham amplo conhecimentos dos gostos dos seus eleitores ardilosamente mapeados pela Cambridge Analytica, conforme foi revelado no documentário "Privacidade Hackeada". Ou seja, apostar no passado usando fake news foi um tiro certeiro (e fatal) na psique do eleitorado.

O passado é um modus operandi na nossa sociedade?

Fiz essa pergunta à Rebeca de Moraes, psicanalista e diretora da consultoria de tendências Trop, do grupo Consumoteca (e já que a nostalgia está na pauta, colega dos áureos tempos da blogosfera =). Ela me contou o seguinte:

"Por um lado, entre os Millennials mais novos e na Geração Z há o mimetismo de artistas, linguagens e demais referências colhidas nas redes sociais, especialmente no youtube e em produções ambientadas em períodos históricos anteriores, como "Stranger Things".
Por outro lado, há uma certa infantilização das pessoas da Geração X e dos Millennials, criados em um ambiente econômico otimista no qual o futuro era previsível. 'seguir os sonhos', 'confiar em si mesmo' foram narrativas difundidas. Por isso são pouco treinadas para as frustrações da vida e tendem a buscar refúgio no passado.
O mercado caminha a passos largos para uma dinâmica moldada por trabalhos de curtíssimo prazo e fica difícil se planejar. Essa incerteza explica, por exemplo, o boom de influenciadores ligados à astrologia e ao tarot. São formas de ter alguma pista do futuro.
Essa 'mania de passado' é inerente ao ser humano, porque o passado não oferece surpresas. É um lugar confortável".

E se perguntarmos para a Siri "O que é o futuro?",  ela vai responder: "O futuro é ficção".

 

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Elsa Hildegard, a Baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven (1874 – 1927) nasceu na Alemanha, foi artista e poeta e integrante do movimento dadaísta.

Siri Hustvedt é escritora e PHD em literatura. Ela advoga fervorosamente que a obra mais famosa de Marcel Duchamp foi na verdade criada por Baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven.

"Dua Lipa afronta os padrões da música pop em “Future Nostalgia”. Essa resenha também faz menção ao disco do Baiana System cujo título é o "Nostalgia do Futuro. O Futuro não Demora" - também conectado com o zeitgeist de futuro indefinido.